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SAÚDE GLOBAL

Aumento dos níveis de resistência a antibióticos é ameaça à saúde global, diz OMS

Aumento da resistência a antibióticos ameaça a saúde global e pode causar milhões de mortes. Especialistas da USP alertam para os riscos do uso incorreto de remédios.

Aumento dos níveis de resistência a antibióticos é ameaça à saúde global, diz OMS
Airton Guimes da Silva
  • Publishedjulho 31, 2026

Especialistas da USP detalham o avanço acelerado de bactérias multirresistentes, o desinteresse da indústria em novos fármacos e os impactos do descarte incorreto de remédios no meio ambiente

Por Davi Milani / Jornal da USP — Publicado em 31/07/2026 às 16:35 – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A resistência antimicrobiana consolidou-se como uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo já apresenta resistência a tratamentos convencionais. Classificada pela entidade entre os dez maiores riscos globais à saúde, a proliferação das chamadas “superbactérias” ameaça regredir a medicina a uma era em que infecções comuns — como pneumonia, tuberculose, gonorreia e salmonelose — não podiam ser tratadas com facilidade.

A perda de eficácia dos antibióticos compromete também a realização de intervenções médicas complexas, como cirurgias de grande porte, transplantes e sessões de quimioterapia, que dependem da prevenção rigorosa de infecções. Atualmente, a resistência aos medicamentos é diretamente responsável por mais de 1 milhão de mortes por ano no mundo.

O mecanismo de disseminação das “superbactérias”

Silvia Costa, professora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e chefe do Laboratório de Bacteriologia do Hospital das Clínicas (HC-FMUSP), explica que a indução dessa resistência é acelerada principalmente pelo uso inadequado ou excessivo de antibióticos. No entanto, outros fatores biológicos e ambientais têm atuado como catalisadores:

“Fatores como exposição à radiação, presença de metais pesados como o mercúrio e até mesmo o impacto da crise climática, com o aumento das temperaturas globais, podem favorecer a seleção e disseminação de cepas resistentes”, pontua a professora.

Dados da ONU revelam que a resistência bacteriana cresceu cerca de 40% em amostras monitoradas entre 2016 e 2023 em mais de 100 países.

Para Nilton Lincopan, docente do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP), a dinâmica de transmissão entre humanos, animais e meio ambiente é versátil, rápida e silenciosa. O transporte do microrganismo por profissionais de saúde, turistas e pacientes que passam longos períodos internados em UTIs acelera a circulação das cepas resistentes tanto no ambiente hospitalar quanto na comunidade.

Prejuízos bilionários e falta de interesse econômico por novos remédios

Além do impacto direto na mortalidade, a resistência bacteriana acarreta custos econômicos devastadores. Relatório do Global Leaders Group on Antimicrobial Resistance (GLG) projeta que os custos diretos para tratar infecções resistentes atinjam US$ 412 bilhões anualmente até 2035, somados a perdas de produtividade estimadas em US$ 443 bilhões por ano.

Apesar da gravidade, a corrida pelo desenvolvimento de novos antibióticos enfrenta um gargalo econômico na indústria farmacêutica:

  • Alto custo e lentidão: O processo entre a pesquisa básica e a chegada do remédio às prateleiras exige investimentos milionários e anos de testes;
  • Baixo retorno financeiro: Como os novos antibióticos são reservados apenas para casos graves e possuem uso por curtos períodos, as vendas são limitadas comparadas a medicamentos de uso diário.

Saúde Única e a importância do descarte correto de medicamentos

A crise das superbactérias exige uma abordagem pautada no conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental. Resíduos de medicamentos descartados incorretamente na rede de esgoto atingem rios e solos, expondo a fauna e favorecendo a seleção de cepas resistentes que acabam retornando à população.

Ações de conscientização alertam para a necessidade de entregar medicamentos vencidos ou em desuso em pontos de coleta credenciados em farmácias e Unidades Básicas de Saúde (UBSs), evitando que cheguem ao lixo comum. Médicos, veterinários e dentistas também são conclamados a prescrever antibióticos de forma estritamente racional, instruindo pacientes sobre doses, horários e tempo exato do tratamento.

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