Brasileiros estão tomando muito remédio para dormir, quando existem alternativas eficazes
Estudo da USP mostra que 60% dos pacientes com insônia recorrem a remédios como Zolpidem em vez de terapias comportamentais. Veja os riscos do uso contínuo.
Estudo inédito liderado pelo Instituto de Psiquiatria da USP alerta que 60% das pessoas em busca de tratamento contra a insônia já dependem de drogas Z, benzodiazepínicos ou automedicação com antialérgicos
Por Luiza Caires / Jornal da USP — Publicado em 31/07/2026 às 16:40 – Foto: Cottonbro studio/Pexels
A insônia atinge até um terço da população brasileira, comprometendo a produtividade, a saúde mental e o bem-estar diário. Embora diretrizes médicas internacionais recomendem a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCCI) como primeira linha de tratamento, o hábito de tomar medicação para induzir o sono continua sendo a escolha predominante no país.
Um estudo do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), publicado na revista científica Sleep Science, revelou que 60% dos pacientes que buscaram atendimento psicológico especializado para insônia já utilizavam fármacos. O consumo concentrava-se em hipnóticos/drogas Z como o Zolpidem (44%), benzodiazepínicos (37,9%) e drogas de venda livre (39%), tais como antialérgicos e relaxantes musculares.
“Os números indicam a necessidade de ampliar o acesso a intervenções comportamentais e promover o uso racional desses medicamentos”, pondera a psicóloga Renatha El Rafihi Ferreira, professora do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do estudo.
Perigos do uso prolongado e o abismo racial no acesso
Especialistas alertam que medicamentos como Zolpidem e clonazepam foram desenvolvidos para uso pontual e de curto prazo. Quando consumidos por longos períodos, causam tolerância (necessidade de doses cada vez maiores) e dependência química, além de falhas de memória, déficit cognitivo e risco elevado de quedas em idosos.
A pesquisa também expôs desigualdades sociodemográficas no consumo: 74% das pessoas brancas avaliadas usavam medicamentos para dormir, contra 26% de pretos e pardos, independentemente da gravidade da insônia.
“O uso e o abuso podem ocorrer em todos os contextos, mas provavelmente estas pessoas [pretos e pardos] têm menos acesso aos serviços de saúde no geral”, contextualiza Ana Flávia Bonini, psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e coautora da pesquisa.
| Categoria de Fármaco | Prevalência de Uso no Estudo | Riscos Principais do Uso Prolongado |
| Drogas Z (ex: Zolpidem) | 44,0% | Tolerância rápida, dependência, sonambulismo e lapsos de memória |
| Medicamentos sem receita (OTC) | 39,0% | Ausência de acompanhamento médico e efeito sedativo temporário |
| Benzodiazepínicos (ex: Clonazepam) | 37,9% | Dependência severa, prejuízo cognitivo e aumento do risco de quedas |
Diagnóstico, gatilhos e a eficiência da Terapia Comportamental
A insônia crônica é caracterizada pela dificuldade em pegar no sono ou permanecer dormindo por pelo menos três vezes por semana, durante três meses ou mais, acompanhada de prejuízos diurnos como fadiga, irritabilidade e perda de foco.
O avanço da doença costuma seguir a “teoria dos três Pês”:
- Predisposição: Fatores genéticos, hormonais (como excesso de cortisol) ou traços de ansiedade;
- Precipitação: Eventos estressores como luto, desemprego ou mudanças bruscas de rotina;
- Perpetuação: Estratégias inadequadas adotadas pelo paciente (ex: passar tempo demais na cama sem dormir, cochilar à tarde ou antecipar o horário de deitar).
A TCCI atua justamente na reestruturação desses hábitos, ensinando o cérebro a associar a cama exclusivamente ao sono e ao sexo. Outras abordagens mais recentes, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), também têm demonstrado eficácia a longo prazo ao tratar a ansiedade de forma ampla.
Médicos reforçam que a descontinuação de remédios para dormir deve ser feita com acompanhamento médico gradual, evitando os efeitos graves da abstinência.
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