Peptídeos viram febre nas redes com promessas milagrosas e especialistas alertam para riscos
Moléculas naturais ganharam força com canetas emagrecedoras como semaglutida e tirzepatida, mas boa parte do que é divulgado na internet não tem comprovação científica nem registro na Anvisa, como BPC-157
Moléculas naturais ganharam força com canetas emagrecedoras como semaglutida e tirzepatida, mas boa parte do que é divulgado na internet não tem comprovação científica nem registro na Anvisa, como BPC-157 e TB-500
Por Lucas Gabriel Marins – Publicado em 23/10/2026 15:18 – Foto: Divulgação
Os peptídeos — moléculas naturalmente produzidas pelo corpo — viraram assunto nas redes sociais. Basta digitar o termo no TikTok, Instagram ou outra plataforma para chover vídeos sobre como eles podem ser bons para turbinar os músculos, para o emagrecimento, para a cicatrização e por aí vai. Nos consultórios, segundo médicos, muitos pacientes aparecem com prints sobre algum deles.
Esse interesse ganhou força com as chamadas “canetas emagrecedoras”, que contêm medicamentos à base de peptídeos. Outros peptídeos e seus análogos são usados como remédio há décadas. Mas boa parte do que é divulgado na internet, com promessas milagrosas, não tem comprovação científica, não está aprovado para os usos anunciados e pode representar riscos à saúde.
“A febre veio na carona da semaglutida e da tirzepatida. Esses remédios funcionam de verdade para obesidade e diabetes, e isso criou um raciocínio torto: se um peptídeo injetável emagrece, qualquer peptídeo injetável deve emagrecer, ou dar músculo, ou rejuvenescer. Não funciona assim”, afirma André Câmara de Oliveira, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP).
O que é um peptídeo?
Os peptídeos são moléculas formadas por cadeias de aminoácidos, compostos orgânicos que se ligam uns aos outros por meio de ligações peptídicas. Muitos são produzidos pelas células a partir de instruções contidas no DNA. Outros são formados a partir do processamento de proteínas maiores.
“O peptídeo é como se fosse um quebra-cabeça. E cada peça desse quebra-cabeça é como se fosse um aminoácido. Então, o quebra-cabeça é o peptídeo e as peças são os aminoácidos”, explica Gustavo David dos Santos, biólogo, mestre e doutor em fisiologia e professor do American Academy Health da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
As proteínas são formadas pelo mesmo tipo de ligação entre aminoácidos, mas geralmente são maiores e apresentam estruturas mais complexas. A distinção entre peptídeos e proteínas, porém, não tem um limite de tamanho universalmente estabelecido.
Qual é a função de um peptídeo?
Depois de ser produzido pelo organismo, esse peptídeo é quebrado em partes menores. Um desses fragmentos dá origem a um peptídeo biologicamente ativo, capaz de modular diferentes funções fisiológicas.
Na prática, isso significa que ele pode atuar na regulação da glicemia, do apetite, da digestão, do crescimento, da reprodução e da resposta ao estresse, entre outras funções.
Para exercer seus efeitos, esses peptídeos geralmente se ligam a estruturas presentes na membrana plasmática das células, chamadas receptores. “É um mecanismo comumente chamado de chave-fechadura. O peptídeo é como se fosse uma chavezinha, que tem uma fechadura específica à qual se liga para gerar uma mudança na função celular”, explica Santos.
Quantos peptídeos existem?
O organismo humano contém milhares de sequências de peptídeos identificadas pela ciência. Um estudo publicado em 2022 na revista Nature Communications citou que cerca de 300 peptídeos humanos com atividade biológica foram caracterizados até então.
Alguns com funções conhecidas são a insulina, que ajuda a controlar a glicemia, e o glucagon, que contribui para elevar os níveis de glicose no sangue quando necessário. Outro que ganhou popularidade nos últimos anos é o GLP-1, um hormônio que participa da regulação do apetite e da glicemia.
Os peptídeos produzidos em laboratório
Os cientistas começaram a produzir peptídeos em laboratório no século 19. Em 1881, o químico alemão Theodor Curtius sintetizou uma molécula que continha dois aminoácidos unidos, um dos primeiros passos para a produção artificial.
“A principal diferença dos peptídeos naturais produzidos pelo nosso organismo e os produzidos em laboratório é que os peptídeos naturais são utilizados como ponto de partida. Em laboratório, geralmente essa molécula é sintetizada, ela é uma molécula que tem modificações”, detalha Santos.
Entre os exemplos mais conhecidos estão a insulina e seus análogos, usados no tratamento do diabetes, e a semaglutida e a tirzepatida, indicadas para diabetes tipo 2 e obesidade. Esses dois últimos estão entre os avanços mais importantes recentes no tratamento medicamentoso da obesidade.
Outros exemplos são o glucagon, utilizado em casos de hipoglicemia grave; a teriparatida, análogo do hormônio da paratireoide (PTH), indicado para osteoporose; e a octreotida e a lanreotida, análogos da somatostatina usados no tratamento da acromegalia e de alguns tumores neuroendócrinos.
Como saber se um peptídeo tem registro na Anvisa?
É possível consultar os medicamentos registrados no Brasil na base de dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A pesquisa pode ser feita pelo nome do princípio ativo ou do medicamento.
Em julho de 2026, a Anvisa informou que determinados peptídeos injetáveis divulgados nas redes sociais, como BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295 e ipamorelina, não estavam registrados como medicamentos no país. A agência também alertou que alguns desses produtos não têm regularização em nenhuma categoria sanitária.
Como identificar promessas suspeitas?
Oliveira, da SBEM-SP, aponta sinais de alerta nas redes sociais:
Promessas demais: mesmo produto promete emagrecer, aumentar massa muscular, melhorar libido e rejuvenescer. Resultados garantidos, apelo ao natural com termos como “natural” e “bioidêntico”, venda sem avaliação médica pelo direct ou WhatsApp, confusão entre categorias ao anunciar injetável como suplemento, antes e depois como prova, estudos apresentados fora de contexto, aprovação estrangeira sem detalhes como “aprovado pelo FDA” sem indicar para qual uso, e protocolos com vários peptídeos vendidos como personalizados sem evidências.
Quando o uso pode ser perigoso?
Alguns peptídeos são usados como medicamentos no tratamento de diferentes doenças. O problema está no uso sem orientação médica para uso fitness. Segundo Oliveira, um dos principais riscos é não saber exatamente qual substância está sendo injetada.
“Um produto comprado pela internet, muitas vezes rotulado como ‘uso em pesquisa’, pode vir com dose errada, contaminado, com outra substância no lugar ou sem esterilidade. Em injetável, isso pode virar infecção, abscesso ou reação alérgica”, explica.
Há também riscos associados à própria molécula, como alterações na glicemia, inchaço, dores nas articulações, aumento da pressão arterial, náuseas e desequilíbrios hormonais. Outro perigo é tentar tratar um sintoma sem investigar sua causa.
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