Câncer é principal causa de morte por doença entre 1 e 19 anos no Brasil
Brasil deve registrar 7.560 novos casos por ano entre 2026 e 2028, segundo Inca; câncer já é principal causa de morte por doença entre 1 e 19 anos, mas diagnóstico
Brasil deve registrar 7.560 novos casos por ano entre 2026 e 2028, segundo Inca; câncer já é principal causa de morte por doença entre 1 e 19 anos, mas diagnóstico precoce em centros especializados eleva cura; conheça sintomas e tumores mais comuns
Por Maiara Ribeiro – Publicado em 22/10/2026 15:30 – Foto: Divulgação
O Brasil deve registrar 7.560 novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano entre 2026 e 2028, sendo 52,4% em meninos e 47,6% em meninas. As estimativas são do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
O câncer já é a principal causa de morte por doença na população de 1 a 19 anos. Porém, ainda segundo o Inca, 80% dos pacientes podem ser curados quando a doença é diagnosticada precocemente e tratada em centros especializados.
Sinais de alerta e importância da detecção rápida
“Os sintomas [do câncer infantil] muitas vezes são inespecíficos e podem ser confundidos com problemas comuns da infância”, afirma Mariana Bohns Michalowski, oncologista pediátrica e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope).
Cansaço e palidez persistentes, manchas roxas sem motivo aparente, dores que não melhoram, aumento de gânglios, perda de peso, inchaços, alterações neurológicas, vômitos persistentes e dores de cabeça frequentes estão entre os sinais que merecem avaliação médica.
A especialista ressalta que a presença desses sintomas não significa que a criança e o adolescente tenham câncer, mas a persistência deles deve motivar a investigação.
Ainda de acordo com a médica, embora essas doenças não possam ser prevenidas por meio de mudanças de hábitos ou de programas de rastreamento populacional, o reconhecimento precoce dos sinais e dos sintomas, aliado a uma avaliação clínica adequada e ao encaminhamento ágil para serviços especializados, é fundamental para aumentar as chances de sucesso no tratamento.
Tumores mais comuns na infância e adolescência
“O câncer infantojuvenil possui características biológicas bastante distintas do câncer em adultos. A distribuição dos tipos tumorais varia significativamente conforme o desenvolvimento biológico da criança e do adolescente”, afirma Michalowski.
Primeira infância (0 a 4 anos):
Leucemias: correspondem à neoplasia mais frequente nessa fase, com amplo predomínio da leucemia linfoide aguda (LLA);
Tumores embrionários, como: neuroblastoma (que atinge o sistema nervoso simpático), tumor de Wilms (rins), retinoblastoma (olhos), hepatoblastoma (fígado) e meduloblastoma (sistema nervoso central).
Crianças maiores e adolescentes (5 a 19 anos):
Linfomas: apresentam aumento acentuado de incidência nessa fase, especialmente o linfoma de Hodgkin (muito característico da adolescência e do início da idade adulta) e os linfomas não-Hodgkin;
Sarcomas ósseos e de partes moles: o osteossarcoma e o sarcoma de Ewing surgem predominantemente nessa faixa etária, com frequência associados às fases de estirão de crescimento;
Tumores do sistema nervoso central: continuam representativos, variando em tipo histológico (como gliomas de alto e baixo grau);
Tumores epiteliais e de células germinativas: neoplasias de padrão mais adulto, como o carcinoma de tireoide, melanomas e tumores gonadais (que se originam nas gônadas, as glândulas sexuais — testículos e ovários).
Particularidades do tratamento
“Embora utilize as mesmas modalidades terapêuticas do câncer em adultos — quimioterapia, cirurgia, radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo —, o tratamento infantojuvenil não consiste em aplicar protocolos de adultos em doses reduzidas. Trata-se de uma especialidade médica com abordagens biológicas e assistenciais próprias”, esclarece Michalowski.
Os cânceres infantis têm alta taxa de resposta e cura. Eles são predominantemente de crescimento rápido, derivados de células embrionárias ou imaturas. Segundo a especialista, essa característica os torna altamente sensíveis à quimioterapia. “Quando tratados em centros especializados de oncologia pediátrica, as taxas globais de cura ultrapassam 80%”, destaca.
Outra questão é que, diferentemente dos adultos, crianças e adolescentes estão em processo contínuo de desenvolvimento físico, cognitivo, endócrino e reprodutivo.
“Por isso, o uso da radioterapia é extremamente criterioso em crianças muito jovens, devido ao risco de sequelas no desenvolvimento ósseo e cognitivo. E os esquemas quimioterápicos são desenhados para mitigar a toxicidade de longo prazo (cardiotoxicidade, infertilidade e risco de segundos tumores)”, explica.
Além disso, o atendimento deve ser multidisciplinar e especializado. A médica ressalta que o sucesso depende da atuação integrada de diversos profissionais, como oncologistas pediátricos, cirurgiões pediátricos, intensivistas, enfermeiros especializados, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e pedagogos.
Por fim, é preciso pensar no seguimento tardio. “Dado o elevado número de sobreviventes, o cuidado se estende por décadas após o término do tratamento, monitorando a saúde cardiovascular, hormonal, funcional e psicológica desses indivíduos ao longo da vida adulta”, afirma.
Como apoiar crianças e adolescentes em tratamento
O diagnóstico desestrutura todo o núcleo familiar. Segundo Michalowski, a atuação dos pais exige equilíbrio entre suporte ao paciente e preservação da própria saúde mental.
A primeira recomendação é ter comunicação aberta e adequada à idade. “Crianças e adolescentes percebem alterações no ambiente e na rotina. A comunicação deve ser honesta, com linguagem clara e adaptada ao nível de maturidade”, orienta.
Também é importante preservar a rotina e a identidade da criança: manter regras básicas, momentos de lazer, contato seguro com amigos e acompanhamento pedagógico hospitalar/domiciliar ajuda a manter senso de normalidade.
Outro ponto é o cuidado com o cuidador. A oncologista recomenda delegar tarefas práticas para parentes e redes de apoio, estabelecer revezamento no acompanhamento hospitalar, buscar acompanhamento psicológico e preservar momentos mínimos de descanso e nutrição adequada sem culpa.
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