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Psicologia

Como a paternidade muda o cérebro masculino

A paternidade altera a biologia masculina por meio de quedas na testosterona e aumentos na oxitocina e prolactina, processos que começam ainda durante a gravidez. Estudos neurocientíficos comprovam que o

Como a paternidade muda o cérebro masculino
Airton Guimes da Silva
  • Publishedagosto 4, 2026

Desde a gestação da parceira, homens passam por alterações na testosterona, oxitocina e prolactina; quanto maior a dedicação nos cuidados diários, mais intensas são as transformações neurais.

Por Diego Arguedas Ortiz (BBC Future) — Publicado em 04/08/2026 às 11:16 | Atualizado em 04/08/2026 às 14:26 – Foto: BBC News

Nos meses que antecederam o nascimento do meu filho, minha parceira e eu participamos de workshops sobre parto, sessões de amamentação e cursos pré-natais. Lemos pilhas de livros e anotamos detalhadamente as transformações no corpo feminino: hormônios flutuando, órgãos mudando de posição e o cérebro se remodelando. Ninguém, porém, me avisou que meu próprio cérebro e corpo também estavam se preparando biologicamente para a chegada do bebê.

Essa transição vai muito além de uma escolha cultural ou de comportamento social. Uma sólida literatura científica demonstra que a paternidade ativa ativa circuitos endócrinos e neurais profundamente enraizados na evolução humana.

A queda da testosterona e o ajuste biológico

As primeiras evidências de alterações físicas em pais surgiram do estudo de mamíferos e primatas no final do século 20. Nos anos 2000, o antropólogo Lee Gettler, diretor do Laboratório de Hormônios, Saúde e Comportamento Humano da Universidade de Notre Dame (EUA), investigou a questão em humanos por meio de um estudo longitudinal nas Filipinas.

Acompanhando centenas de homens ao longo de quatro anos, a equipe de Gettler constatou que aqueles que se tornaram pais apresentaram quedas acentuadas nos níveis de testosterona em comparação aos que não tiveram filhos. A redução foi ainda mais expressiva entre os pais que dedicavam mais horas diárias ao cuidado e à rotina dos bebês.

Estudos subsequentes, como os conduzidos pelo neurocientista James K. Rilling, da Universidade Emory, revelaram que a queda da testosterona e da vasopressina começa ainda durante a gestação, apenas quatro meses após a concepção. A diminuição desses hormônios está associada a reações mais atentas e empáticas ao choro da criança e a um maior envolvimento na criação.

Oxitocina e prolactina: o ciclo do afeto

Assim como ocorre com as mães, os pais registram picos de oxitocina (o “hormônio do amor”) ao segurar o recém-nascido e interagir por meio de brincadeiras e contato físico. A oxitocina cria um ciclo de reforço positivo: quanto mais o pai interage com a criança, maiores são os níveis hormonais liberados, estimulando ainda mais o comportamento cuidador.

Outro hormônio impactado é a prolactina, historicamente associada à amamentação. Pesquisas lideradas pela psicóloga clínica Darby Saxbe indicam que homens com vínculos mais fortes com os filhos ainda não nascidos apresentam taxas elevadas de prolactina, o que prevê um grau mais elevado de dedicação pós-parto.

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As interações do pai com seus filhos, por meio de brincadeiras, podem moldar sua resposta biológica à paternidade — Foto: BBC News

Transformações neurais e a ‘segunda adolescência’

Exames de ressonância magnética cerebral mostram que o cérebro dos pais passa por um processo de remodelação adaptativa similar ao que ocorre durante a adolescência. Saxbe, autora do livro Dad Brain, destaca que essa neuroplasticidade se intensifica de acordo com o tempo e o envolvimento do pai na rotina da criança — uma dinâmica do tipo “use ou perca”.

Um estudo seminal de 2014, liderado pela pesquisadora Ruth Feldman, analisou a atividade cerebral de pais em diferentes configurações familiares. Nos casos em que os homens assumem o papel de cuidadores primários, seus cérebros ativam áreas instintivas e afetivas (como a amígdala) de forma equivalente às observadas em mães que exercem a função primária, demonstrando a capacidade latente do cérebro humano para o cuidado parental.

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Ao contrário de alguns estereótipos, os homens podem ser biologicamente programados para cuidar dos filhos — Foto: BBC News

Impactos na saúde da família

O reconhecimento da biologia paterna reforça a importância de políticas públicas voltadas para a Primeira Infância, como o incentivo à licença-paternidade estendida e a inclusão dos homens nas consultas pré-natais.

O engajamento paterno traz benefícios comprovados para toda a estrutura familiar: mães com parceiros participativos apresentam índices superiores de saúde mental, enquanto estudos de longo prazo associam a presença de pais atentos a melhores indicadores de saúde cardiovascular e desenvolvimento emocional nas crianças.

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