Boa tarde • quinta-feira, 22 de outubro de 2026 •
Anvisa registra 9 mortes em uso compassivo de polilaminina e impõe restrições; pesquisadora questiona medida | Revista Saúde em Forma
x
Close

CNPJ 59.681.458/0001-04

MEDICAMENTOS

Anvisa registra 9 mortes em uso compassivo de polilaminina e impõe restrições; pesquisadora questiona medida

Substância ainda em testes teve 119 aplicações por uso compassivo; agência diz que mortes ocorreram fora do protocolo que hoje é exigido e laboratório afirma que óbitos não estão relacionados

Anvisa registra 9 mortes em uso compassivo de polilaminina e impõe restrições; pesquisadora questiona medida
Airton Guimes da Silva
  • Publishedoutubro 22, 2026

Substância ainda em testes teve 119 aplicações por uso compassivo; agência diz que mortes ocorreram fora do protocolo que hoje é exigido e laboratório afirma que óbitos não estão relacionados ao medicamento


Por Poliana Casemiro, g1 – Publicado em 22/10/2026 -16:45 – Foto: Reprodução/TV Globo

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) impôs novas regras para o uso compassivo da polilaminina após o registro de nove mortes após as aplicações. A substância, ainda em testes, é aplicada em pacientes por uso compassivo e a decisão foi questionada em vídeo divulgado nas redes sociais pela pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelos estudos.

Entre as 119 aplicações feitas até agora, foram registradas nove mortes. O laboratório Cristália, que lidera o estudo, informou que os óbitos não são relacionados ao uso da substância.

O uso compassivo, previsto em norma da Anvisa desde 2013, permite que pacientes em estado grave e sem alternativas de tratamento recebam substâncias ainda em teste, mediante autorização caso a caso da agência.

Segundo a Anvisa, a decisão de restringir o uso foi tomada depois que, em março, a empresa notificou cinco mortes de pacientes que receberam a polilaminina fora dos critérios previamente estabelecidos no protocolo clínico. Até agora, são nove mortes, todas de pacientes que não estavam no protocolo da pesquisa clínica hoje exigido.

image 16
Estudo da polilaminina aponta que proteína pode ajudar a devolver movimentos para quem tem lesões na medula — Foto: Reprodução/TV Globo

O que é a polilaminina

A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, uma molécula presente naturalmente nos tecidos do corpo e que ajuda a dar suporte às células. A hipótese do tratamento é que, aplicada na medula lesionada, ela poderia estimular a regeneração de conexões nervosas.

Hoje, a substância avança por dois caminhos. Um estudo clínico, que deve responder se ela funciona e que foi aprovado pela Anvisa em janeiro, mas que ainda não começou. De acordo com o laboratório, ainda não foi possível recrutar pacientes.

Enquanto isso, o Cristália fornece a substância por uso compassivo. Cirurgia, equipe e internação ficam a cargo do SUS ou da rede privada.

Quais são as novas restrições

Tatiana defende que a polilaminina seja liberada para pessoas com lesão completa em qualquer altura da medula, inclusive no pescoço, o que inclui tetraplégicos.

Segundo ela, até abril, pacientes com lesão de até três meses conseguiam autorização para o uso compassivo. Agora, a Anvisa passou a autorizar apenas pacientes com lesões de até 72 horas, localizadas entre as vértebras T2 e T10, na altura do tórax.

“Em abril desse ano, a diretoria da Anvisa chamou a empresa fabricante da polilaminina para uma reunião de alinhamento. Nessa reunião, a diretora Daniela Marreco informou que não ia mais autorizar os pedidos que estavam chegando e obrigou a empresa a impor restrições ao uso compassivo”, disse Tatiana em vídeo.

A Anvisa informou que, após as cinco primeiras mortes, fez uma nova avaliação de risco-benefício e concluiu por estabelecer os critérios do estudo clínico para inclusão de pacientes do programa de uso compassivo, até que houvesse mais evidências de segurança.

A agência informou ainda que fez consulta com um painel técnico com representantes do Conselho Federal de Medicina, além de neurologistas e neurocirurgiões de renome nacional e internacional. De acordo com a agência, os especialistas recomendaram por unanimidade a não expansão do uso, ressaltando preocupações com as mortes e com a forma de aplicação.

A polilaminina precisa de uma aplicação na medula, o que não é um procedimento simples. Em fevereiro, Tatiana disse ao g1 que seria preciso treinar médicos para fazer essas aplicações pelo país.

O que se sabe sobre quem já usou

Os dados de uso compassivo são coletados pelo Cristália e repassados à Anvisa. Em uma apresentação na Rio Innovation Week, em agosto, Tatiana apresentou dados de 17 pacientes, dos mais de 100 que receberam a substância.

Dez deles mostraram alguma mudança na escala AIS, usada para classificar a gravidade das lesões na medula. Esses pacientes passaram da categoria A, de lesão completa, para B ou C. A mudança indica que recuperaram alguma sensibilidade ou movimento na região anal, um avanço distante de voltar a andar.

Uso para lesões crônicas e críticas à Anvisa

Tatiana também defende estender o acesso a pessoas com lesões antigas, que convivem com paralisia há anos, citando caso de paciente tetraplégico após acidente em fevereiro de 2025. No vídeo, ela afirma que a proposta se apoia em um estudo com cães, concluído no ano passado, que segundo ela indicou ser possível alguma melhora mesmo anos após a lesão.

Em nota, o Cristália informou que os estudos em cães ainda não foram finalizados e que, sem isso, não há como seguir para etapas com pacientes.

A pesquisadora também defendeu que os dados de uso compassivo poderiam justificar mudanças no desenho do estudo clínico que ainda será feito. Segundo a Anvisa, esses dados não podem ser usados para construir evidências e só podem ser usados como informação suplementar a um possível pedido de aprovação depois da pesquisa pronta.

Em nota, o Cristália disse que nenhum dado gerado pelo uso compassivo pode ser utilizado para fins regulatórios e que não está nos planos alterar o desenho do estudo. O laboratório afirmou ainda que respeita a decisão da Anvisa e repudia ataques feitos às decisões e aos servidores da agência.

No vídeo, Tatiana faz acusações de interferência e critica a diretora Daniela Marreco.

Saiba mais 📲https://revistasaudeemforma.com.br/