Negligência internacional em epidemias de ebola afeta populações vulneráveis, indica pesquisa
Estudo realizado por pesquisadores da USP revela que a resposta internacional a surtos de ebola é determinada pela geopolítica e pelo risco enfrentado pelo Norte Global. A análise compara a
Pesquisa analisa como a atenção política e o envio de verbas internacionais aumentam quando epidemia ameaça o Norte Global, enquanto crises restritas à África sofrem com lentidão e falta de recursos.
Por Redação – Publicado em 28/09/2026 16:00 – Foto: bhossfeld/Pixabay
A mobilização da comunidade internacional diante de emergências sanitárias é fortemente influenciada por fatores geopolíticos, econômicos e sociais, variando conforme o alcance geográfico e a ameaça percebida pelas nações desenvolvidas. Essa é a principal conclusão de uma pesquisa desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP), que analisou a assimetria no envio de verbas, profissionais e suprimentos para conter surtos de ebola no continente africano.
De acordo com o estudo, quando a circulação do vírus permanece restrita a territórios africanos, a reação dos órgãos multilaterais e dos países de alta renda tende a ser mais lenta. Em contrapartida, a resposta é acelerada e militarizada quando há risco iminente de a doença se espalhar para além da região e atingir o Norte Global.
A diferença de postura entre as epidemias de 2014 e 2018
A investigação, orientada pela professora Deisy de Freitas Lima Ventura, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, e realizada pelo pesquisador Ramiro Januário dos Santos Neto, comparou as ações adotadas durante a epidemia de 2014 na África Ocidental e a de 2018 na República Democrática do Congo (RDC).
No surto de 2014, provocado pela cepa Zaire ebolavirus, o contágio de pessoas em países como Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e Itália levou à decretação de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A crise foi enquadrada pelo Conselho de Segurança da ONU como ameaça à paz global por meio da Resolução 2177, desencadeando um expressivo envio de tropas, recursos financeiros e equipes médicas.
Em contraste, o surto de 2018 em Kivu do Norte e Ituri (RDC) — o segundo mais letal da história, com 3.470 casos e 2.299 mortes em uma zona de conflito armado — enfrentou hesitação, escassez operacional e subfinanciamento crônico. O Comitê de Emergência da OMS rejeitou a classificação de alerta máximo por três vezes consecutivas sob a justificativa de baixo risco epidemiológico global, decretando ESPII apenas em julho de 2019, quando o vírus atingiu a fronteira de Uganda.
Alerta para o cenário recente na República Democrática do Congo
A discussão ganha relevância diante da evolução sanitária na República Democrática do Congo, que voltou a registrar a circulação da variante Bundibugyo. Dados do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) indicavam um acumulado de 7.773 casos confirmados e 3.759 óbitos no país, com 839 pacientes hospitalizados em isolamento.
Pesquisadores apontam que crises sanitárias contidas no Sul Global correm o risco de ser subestimadas enquanto forem encaradas como problemas estritamente locais, sem oferecer risco direto ao Ocidente. Além da percepção seletiva de risco, o combate às epidemias enfrenta obstáculos como a concentração da produção tecnológica e de insumos em países desenvolvidos, criando barreiras de propriedade intelectual para o acesso universal a vacinas e tratamentos.
Histórico da doença
Identificado originalmente em 1976 em territórios do atual Congo e do Sudão do Sul, o gênero Ebolavirus causou 35 surtos no continente africano até 2022. A doença possui elevada taxa de letalidade e é transmitida pelo contato direto com sangue e outros fluidos corporais de indivíduos ou animais infectados.
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