Estudo mostra que técnica de imaginação terapêutica reescreve memórias da infância e alivia medo de fracassar
Um estudo conduzido na Polônia com 180 jovens adultos revelou que a técnica de reescrita de imagens consegue suavizar o peso emocional de lembranças negativas da infância. A intervenção terapêutica
Pesquisa acompanhou 180 jovens adultos por seis meses e comprovou alívio duradouro da culpa, da tristeza e da reatividade física associadas a críticas recebidas na infância.
Por Diogo Rodriguez – Publicado em 18/08/2026 – 15:32
Uma técnica de psicoterapia baseada em imaginação conseguiu reduzir, de forma duradoura, o medo de fracassar associado a lembranças de críticas recebidas na infância. A descoberta é de um artigo publicado no periódico científico Frontiers in Psychology por pesquisadores da SWPS University e do Instituto Nencki de Biologia Experimental, ambos situados na Polônia.
O estudo acompanhou 180 jovens adultos com idades entre 18 e 35 anos, todos com níveis elevados de medo de fracasso avaliados por questionários validados. Ao longo de duas semanas, os voluntários passaram por quatro sessões de intervenção voltadas a uma lembrança específica de crítica vivida na infância e foram acompanhados por um período de seis meses após o encerramento do tratamento.
Três abordagens de teste mental
Para avaliar a eficácia das intervenções, os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos distintos:
- Exposição por Imagens: O voluntário apenas revive mentalmente a cena que provocou medo ou ansiedade, mantendo o desfecho original sem qualquer alteração.
- Reescrita de Imagens Imediata: O participante relembra a cena de crítica e, na sequência, imagina uma figura protetora (como um terapeuta) intervindo, confrontando quem fez a crítica e amparando a criança que ele foi.
- Reescrita de Imagens Tardia: A mesma prática de reescrita é realizada após um intervalo de dez minutos da reativação da lembrança — tempo desenhado para interferir no processo de reconsolidação da memória.
As três abordagens produziram reduções significativas e sustentadas no medo de fracasso, além de diminuírem os níveis de tristeza e culpa relatados pelos participantes. Os pesquisadores também mediram a resposta física dos voluntários por meio da condutância da pele, indicador de ativação do sistema nervoso, e constataram queda na reatividade fisiológica diante das lembranças de crítica. Os ganhos permaneceram estáveis nas reavaliações feitas aos três e seis meses após o tratamento.
“O estudo mostra que é possível reduzir a intensidade de emoções negativas e da ativação fisiológica associadas a lembranças de críticas na infância. Técnicas bem escolhidas podem influenciar a forma como essas memórias são vividas, tornando-as menos pesadas”, afirma Julia Bączek, psicóloga do Laboratório de Neurociência Afetiva da SWPS University e uma das autoras do estudo.
O papel do ‘erro de predição’ no cérebro
Um achado chamou a atenção dos autores: a reescrita de imagens funcionou melhor quando produzia um momento de surpresa no participante. Os pesquisadores associam esse efeito ao chamado erro de predição, conceito que descreve o descompasso entre o que a pessoa espera e o que de fato acontece.
Na prática, os cientistas mediram esse efeito por meio de picos de ativação fisiológica registrados no momento em que a crítica era substituída, sem aviso prévio, pela intervenção do protetor imaginário.
“Mostramos que uma parte crucial da terapia baseada em imagens é criar uma discrepância entre o que o paciente espera e o que realmente acontece na nova lembrança. É essa surpresa que abre caminho para uma mudança terapêutica duradoura”, explica Stanisław Karkosz, cientista cognitivo da mesma equipe.
O resultado contrariou parte da hipótese inicial dos pesquisadores, que esperavam que o intervalo de dez minutos trouxesse efeitos ainda mais fortes ao interferir na reconsolidação da memória. As análises indicaram benefícios mais consistentes no grupo que praticou a reescrita sem pausa, enquanto o grupo de exposição simples apresentou um retorno parcial dos sintomas em algumas medidas de acompanhamento.
Os autores ponderam que os resultados têm limitações, já que a maioria dos participantes era formada por mulheres jovens e estudantes universitárias, o que reduz a possibilidade de generalização para outros perfis demográficos. Para a equipe, os achados reforçam que experiências passadas difíceis não precisam permanecer fixas emocionalmente ao longo da vida.
Saiba mais 📲https://revistasaudeemforma.com.br/