Estudo inédito na América Latina mostra que demência pode ser prevenida com mudanças de estilo de vida
O estudo multicêntrico LatAm-FINGERS, publicado no The Lancet com participação da USP e UFMG, comprovou que a combinação de exercícios, nutrição adaptada, estímulo mental e controle de riscos cardiovasculares melhora
Publicada no The Lancet, a pesquisa LatAm-FINGERS revela que uma rotina combinando exercícios, alimentação adaptada, treino cognitivo e controle cardiovascular melhora significativamente a memória e a função executiva de idosos.
Por Roseane Santos — Publicado em 03/08/2026 às 16:29
Um ensaio clínico randomizado e multicêntrico conduzido em 11 países da América Latina revelou que intervenções estruturadas no estilo de vida são capazes de conter o avanço do declínio cognitivo em idosos com alto risco de demência. O estudo LatAm-FINGERS, publicado no prestigiado periódico The Lancet, é a primeira evidência desse tipo adaptada ao contexto sociocultural e econômico da região.
A pesquisa acompanhou 1.065 adultos entre 60 e 77 anos ao longo de dois anos. Os participantes submetidos ao programa estruturado — que incluiu atividades físicas quatro vezes por semana, aconselhamento nutricional com base na dieta MIND, treino mental computadorizado e monitoramento cardiovascular — apresentaram melhora na cognição global, na memória episódica e na velocidade de processamento significativamente superior à do grupo que recebeu apenas orientações gerais de saúde.
Dieta adaptada à realidade latina e rastreamento precoce
Uma das grandes contribuições do estudo foi adaptar as diretrizes nutricionais para a realidade local.
“Muitos componentes da dieta mediterrânea não são acessíveis no Brasil. Precisamos pensar em uma alimentação saudável, mas que seja possível dentro da cultura e da realidade econômica de cada país”, explicou a Dra. Claudia Kimie Suemoto, professora da FMUSP e coautora da pesquisa.
No Brasil, os testes foram realizados por centros da USP (São Paulo) e da UFMG (Belo Horizonte). O avanço é considerado crucial, já que mais de 80% das pessoas com a doença no país continuam sem diagnóstico formal. Especialistas como o Dr. Lucas Mella, da ABRAz-SP, defendem que o rastreamento cognitivo passe a ser rotina em consultórios para pacientes a partir dos 50 anos, utilizando testes breves como o MEEM e o MoCA ao primeiro sinal de suspeita.
Desigualdades estruturais e o aumento regional
O achado ganha ainda mais peso frente aos dados do JAMA Neurology, que apontam um crescimento na prevalência de demência em países latino-americanos (de 10,6% para 16,9% em duas décadas). Segundo o Dr. Norberto Frota, diretor científico nacional da ABRAz, o envelhecimento acelerado da população combinado com altas taxas de diabetes, hipertensão, sedentarismo e desigualdade de acesso à saúde explicam esse aumento regional.
A mensagem dos pesquisadores para a comunidade médica e o público geral é clara: nunca é cedo ou tarde demais para adotar hábitos que protejam o cérebro.
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