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Envelhecimento acelerado no Brasil traz demências como maior desafio para famílias

O índice de envelhecimento no país subiu de 30% em 2010 para 55% em 2022, com população acima de 65 anos indo de 20 para 22 milhões; SUS não está

Envelhecimento acelerado no Brasil traz demências como maior desafio para famílias
Airton Guimes da Silva
  • Publishedoutubro 23, 2026

O índice de envelhecimento no país subiu de 30% em 2010 para 55% em 2022, com população acima de 65 anos indo de 20 para 22 milhões; SUS não está preparado e cuidado recai sobre famílias, principalmente mulheres

Por Drauzio Varella / Por Redação – Publicado em 23/10/2026 – 16:06 – Foto: Divulgação

No Brasil, a faixa etária que mais cresce é a dos que estão acima dos 65 anos. Em números arredondados: em 2010 eram 20 milhões, contingente que aumentou para 22 milhões, no Censo de 2022.

Os demógrafos definem o índice de envelhecimento dividindo o número de habitantes com mais de 65 anos pelo de crianças entre zero e 14 anos. Em 2010, o índice era de 30%, ou seja, 30 pessoas com mais de 65 anos para cada cem crianças. Em 2022, esse índice subiu para 55%.

Graças à redução da fecundidade e dos nascimentos, a pirâmide etária no Brasil começou a mudar de formato a partir dos anos 1990. A base foi se alargando com o passar dos anos, como aconteceu nos países mais ricos. A diferença é que neles as mudanças ocorreram em mais de 60 anos; aqui, em metade desse tempo.

O envelhecimento dos brasileiros é visível nas ruas e no ambiente familiar. Em meados do século 19, Machado de Assis descreveu “um velho gaiteiro de 50 anos”, num de seus contos. Hoje, quando perdemos um parente de 70 anos, dizemos que morreu moço.

Previdência, trabalho e saúde sob pressão

O envelhecimento interfere com a organização da sociedade. A Previdência Social terá condições de pagar aposentadorias mensais até os 90 anos, enquanto o número dos que chegam ao mercado de trabalho não para de diminuir? As empresas continuarão a considerar velhos e demitir funcionários de 50 ou 60 anos?

Na área da saúde, as consequências poderão ser trágicas. Os brasileiros envelhecem mal: quando chegam aos 60 anos, mais da metade sofre de hipertensão arterial; o número de pessoas com diabetes deve andar perto dos 20 milhões; os índices de obesidade, com seu cortejo de complicações, aumentam a cada pesquisa do Vigitel — o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico.

Nessa faixa etária é cobrada a conta do fumo, do abuso de álcool e de drogas ilícitas, do sedentarismo e do consumo de alimentos ultraprocessados.

Hoje, cerca de 80% dos atendimentos no SUS são de problemas crônicos que requerem controle pelo resto da vida. Doenças cardiovasculares e câncer são as principais causas de óbito. Criado no fim dos anos 1980, o sistema único não foi pensado para lidar com essa realidade.

Estamos preparados para enfrentar problemas dessa magnitude? Claro que não. Se o Japão, a Suécia e a Finlândia não estão, nós, neste país continental com tantas diferenças regionais, baixo nível educacional e distribuição de renda imoral, é que estaríamos?

O drama das demências

De todos os desafios do envelhecimento, nenhum se compara ao das demências, tragédia que cai nos ombros dos familiares, sem que o SUS esteja preparado para ajudá-los. Uma pessoa incapaz de se vestir, tomar banho, comer sozinha ou entender o que se passa ao redor exige cuidados dia e noite, geralmente a cargo de uma mulher da família, obrigada a interromper a carreira e a vida pessoal por anos consecutivos.

É o caso de Joana, a última paciente que o médico atendeu naquele dia, na Penitenciária Feminina de São Paulo. Ela vivia com a mãe, para lá de Guaianases, no extremo da zona leste. Como tantas outras, saía para o trabalho às 5h e só retornava às 20h.

O avanço do quadro demencial fazia com que a mãe se perdesse ao ir para a rua, situação que acrescentou mais uma tarefa à rotina da filha: procurá-la pela vizinhança.

Quase sempre a encontrava na casa de uma vizinha que a havia recolhido, mas, às vezes, eram horas perambulando por ruelas escuras ou sentada num banco da delegacia, aguardando a vez para prestar queixa.

Tendo que trabalhar para o sustento das duas, Joana comprou uma corda comprida. Antes de sair de casa, amarrava uma extremidade no pé da mesa e a outra na perna da mãe, que podia se movimentar até o quintalzinho, mas sem sair para a rua. Depois de preparar o jantar e o almoço do dia seguinte, Joana levava a mãe para andar a pé pelo quarteirão ou à igreja, nas noites de culto.

Um dia, um vizinho deu parte na delegacia. Joana foi presa por maus-tratos. Na cadeia, mulheres que maltratam mãe, pai ou criança não são aceitas no convívio com as demais, razão pela qual estava confinada na ala do seguro. Como lamentou resignada: “Vim parar na cadeia da cadeia”.

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