Diagnóstico tardio dá poucas chances de cura do câncer de pulmão
Quase 90% dos diagnósticos de câncer de pulmão no SUS ocorrem em estágios avançados, apontou estudo do Instituto Lado a Lado pela Vida. Especialistas cobram a criação de programas de
Análise do Instituto Lado a Lado pela Vida aponta gargalos no acesso à tomografia no SUS; estudo mostra que quase 90% dos pacientes descobrem a doença já em fase avançada.
Por Alana Gandra – Repórter da Agência Brasil – Publicado em 06/08/2026 às 17:19
O câncer de pulmão permanece como uma ameaça silenciosa e devastadora no Brasil. Levantamento realizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, com base em 14.145 registros do Sistema Único de Saúde (SUS) analisados pela plataforma Data Câncer 360º, revela que 89,6% dos pacientes com estadiamento identificado foram diagnosticados já nos estágios 3 e 4 — fases em que as probabilidades de cura são drasticamente reduzidas.
Segundo os dados, 2.015 pessoas descobriram o tumor no estágio 3 e 5.252 no estágio 4. Em contrapartida, apenas 698 pacientes (10,4%) tiveram a doença identificada em fases iniciais (307 no estágio 1 e 391 no estágio 2).
Fatores de risco e gargalos no diagnóstico
Para o oncologista Igor Morbeck, integrante do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, o cenário brasileiro supera os índices críticos globais — nos quais de 70% a 80% dos casos são descobertos em estágio avançado ou com metástase. O avanço da incidência está associado ao tabagismo, sedentarismo, obesidade, má alimentação e ao uso crescente de cigarros eletrônicos entre jovens.
Por se tratar de uma enfermidade assintomática no início, os primeiros sintomas (como tosse, falta de ar e episódios semelhantes a bronquite ou gripe) costumam ser ignorados ou tratados equivocadamente com antibióticos após exames de raio-X de tórax, considerados inadequados para a detecção de tumores em fase primária.
“Aquilo que já é crítico mundialmente, no Brasil está em torno de 90%, e expõe exatamente esses gargalos de acesso ao SUS. Os pacientes ficam vulneráveis, só procurando serviços básicos de saúde quando têm sintomas”, alerta o médico.
Recomendação de tomografia e ausência de programa nacional
Embora a tomografia computadorizada esteja disponível na rede pública, não existe no Brasil um programa nacional estruturado para o rastreamento do câncer de pulmão. Oncologistas e sociedades médicas recomendam a realização de tomografia computadorizada de baixa dose anualmente para grupos de alto risco, principalmente fumantes e ex-fumantes que interromperam o hábito nos últimos 15 anos.
A deficiência nos registros públicos também foi evidenciada no estudo: em 40% dos cadastros analisados, dados sobre o tamanho do tumor e a presença de metástase constavam como ignorados ou não aplicáveis, o que confirma a escassez de exames tomográficos preventivos na atenção primária.
Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam o surgimento de 35.380 novos casos anuais de câncer de pulmão no Brasil no triênio 2026-2028. Em 2024, a doença provocou a morte de 32.555 pessoas no país.
Campanha Respire Agosto e exemplo de superação
Criada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, a campanha Respire Agosto busca conscientizar a população sobre a prevenção da doença. A ação ganha voz com relatos como o de Mônica Chain Montone, que venceu o câncer de pulmão diagnosticado em 2008 e uma recidiva em 2010.
Fumante no passado, Mônica descobriu o primeiro tumor em estágio inicial, o que garantiu 94% de chances de cura após a intervenção cirúrgica. Hoje, ela realiza acompanhamento tomográfico anual no Hospital A.C.Camargo. “Eu vou ser meu próprio exemplo e vou falar para todo mundo saber que tem possibilidade de cura. E deu certo. É importante conscientizar as pessoas”, enfatizou.
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