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PROTEÇÃO

Vacinação contra sarampo não atinge meta em nenhum estado e risco de surtos cresce

Cobertura nacional com duas doses da tríplice viral está abaixo de 80%, distante dos 95% necessários para conter o vírus; países das Américas enfrentam mais de 20 mil casos, com

Vacinação contra sarampo não atinge meta em nenhum estado e risco de surtos cresce
Airton Guimes da Silva
  • Publishedoutubro 22, 2026

Cobertura nacional com duas doses da tríplice viral está abaixo de 80%, distante dos 95% necessários para conter o vírus; países das Américas enfrentam mais de 20 mil casos, com mortes registradas

Por Silvana Reis, Poliana Casemiro, g1 – Publicado em 22/10/2026 – 16:53 – Foto: Adobe Stock

O Brasil tenta preservar o status de país livre da circulação endêmica do sarampo, recuperado em novembro de 2024, em um momento em que países vizinhos registram mais de 20 mil casos. O Peru, por exemplo, já tem cerca de 3 mil casos e a Bolívia também vive situação de descontrole, conforme destacou ao g1 o diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti.

Por isso, o foco do Ministério da Saúde neste momento é reforçar a vigilância e intensificar a vacinação com a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, em municípios que fazem fronteira com o Peru, na região oeste do Amazonas.

Apesar de o país ter a melhor cobertura de vacinação contra o sarampo desde 2016, nenhum estado atingiu ainda a meta de vacinar 95% das crianças menores de 2 anos com duas doses por ano. Este é o índice considerado necessário para impedir a circulação sustentada de um dos vírus mais contagiosos que existem.

No país, a imunização completa com as duas doses da tríplice viral está abaixo de 80%, cenário que preocupa especialistas diante do avanço da doença em países vizinhos. A primeira dose garante imunidade de 94% a 96% contra o sarampo. Já as duas doses garantem proteção acima de 97%.

Gatti explicou que, em crianças de até 5 anos, a cobertura da segunda dose chegou a 91% em 2024, ainda abaixo da meta de 95%. Além disso, o período ideal para a criança ser vacinada com as duas doses é de até os 2 anos de idade.

Ranking de cobertura por estado

Este ano, os estados que lideram o índice de cobertura vacinal são o Ceará, com 86,69%, Paraná, com 86,76%, e Minas Gerais com 86,05%. Os piores índices foram registrados no Amapá, com 63,59%, Pará, com 67,02%, Maranhão, com 69,66% e Rio de Janeiro, com 69,74%.

Já em 2025, os melhores índices foram do Paraná, com 89,92%, Minas Gerais, com 87,62%, Rondônia, com 84,56% e Distrito Federal, com 84,03%. Os piores ficaram com Pará, com 58,25%, Goiás, com 58,59% e Amapá, com 63,02%.

Casos importados podem provocar novos surtos

Embora o país não registre transmissão sustentada, casos importados continuam sendo identificados e podem provocar novos surtos, especialmente em regiões com baixa cobertura vacinal.

Em 2025, o Brasil registrou 39 casos de sarampo. Em 2026, já são pouco mais de 50, destaca o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). A maioria das ocorrências deste ano foi registrada em São Paulo, principalmente na capital.

Os números contrastam com a situação de países vizinhos e dos Estados Unidos, que enfrentam um dos piores cenários das últimas décadas. O país norte-americano já ultrapassou 3,6 mil casos em 2026 e cinco mortes. No início de outubro, Nova York declarou estado de emergência.

“Quando a gente atinge mais de 95% da população vacinada, a gente impede que esses casos importados se traduzam por uma transmissão sustentada da doença”, explica Kfouri. Ele ressalta a necessidade de coberturas elevadas e homogêneas, já que bolsões de baixa cobertura podem ter o mesmo efeito de uma cobertura não ideal.

Segundo Kfouri, o último caso autóctone registrado no país ocorreu em junho de 2022, no Amapá. A circulação internacional continua trazendo casos de brasileiros que se infectam no exterior ou estrangeiros que chegam infectados.

Por que a meta de 95% é tão importante

O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas. Sua transmissão ocorre pelo ar, por meio de tosse, espirros, fala ou respiração. Por isso é necessário que pelo menos 95% da população esteja protegida para impedir sua circulação sustentada, garantindo a chamada imunidade coletiva.

Quando a cobertura fica abaixo desse nível, aumentam as possibilidades de circulação do vírus. O problema não se limita a índices nacionais, já que comunidades com grande concentração de não vacinados formam bolsões de suscetibilidade capazes de favorecer surtos localizados.

A pediatra Flavia Bravo, diretora da SBIm, alerta que reduções aparentemente pequenas na cobertura podem representar um número expressivo de desprotegidos. “O país criou uma multidão de pessoas suscetíveis e que hoje são crianças e adultos vulneráveis ao vírus”, explica.

Situação nos Estados Unidos

Os Estados Unidos registraram mais de 3,6 mil casos em 2026, índice 59% superior ao total de 2025, que já havia sido o pior ano em décadas. Todas as vítimas não estavam imunizadas. O cenário é resultado de queda prolongada da cobertura. Em 2011, 21 dos 44 estados norte-americanos alcançavam cobertura superior a 95%. Atualmente, apenas 10 dos 49 estados avaliados mantêm esse patamar.

Uma análise baseada nos dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) indica que pelo menos 1,7 milhão de crianças deixaram de completar a vacinação nos últimos anos.

Complicações e sintomas

O sarampo pode provocar pneumonia, otite média aguda, encefalite e morte. A pneumonia ocorre em aproximadamente uma a cada 20 crianças e é a causa mais comum de morte. A otite atinge cerca de uma a cada 10 crianças e pode provocar perda auditiva. A encefalite ocorre em uma a quatro de cada mil crianças, com cerca de 10% de letalidade entre esses casos. Entre uma e três de cada mil crianças com sarampo podem morrer.

A doença também pode causar amnésia imunológica, deixando o paciente mais vulnerável a outras infecções por três a seis meses.

Os sintomas incluem febre alta acima de 38,5°C, tosse seca, conjuntivite, mal-estar e manchas vermelhas que surgem entre três e cinco dias após o início dos sintomas, começando no rosto e atrás das orelhas.

Quem deve se vacinar

A prevenção é feita com a tríplice viral. O Calendário Nacional prevê primeira dose aos 12 meses e segunda dose aos 15 meses. Dos 5 aos 29 anos, pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto devem ter pelo menos duas doses. Dos 30 aos 59 anos, a recomendação é de pelo menos uma dose. Em situações de surto, o Ministério pode ampliar a vacinação.

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