Solidão na velhice é tão prejudicial à saúde quanto grandes fatores de risco, alerta geriatra
Com base em dados do IBGE que mostram o crescimento de mulheres idosas morando sozinhas no Brasil, especialistas e geriatras debatem o conceito de envelhecimento bem-sucedido. O foco atual da
Especialistas apontam a construção de vínculos ao longo da vida como um pilar do bem-estar, da autonomia e da qualidade de vida na velhice
Por Camila Bucoff , Marie Claire – Publicado em 24/06/2026 15:18
Aos 76 anos, Neuza Carriço Fernandes mantém uma rotina que desafia o imaginário social que atrela a velhice à dependência, à invalidez ou ao isolamento. Morando sozinha há duas décadas após ficar viúva, Neuza empreende vendendo bolos, mantém uma vida social ativa, frequenta bailes e vive um relacionamento amoroso com um homem 14 anos mais jovem. “O que motiva é a vida mesmo. Eu acho a vida tão legal”, afirma.
A trajetória de Neuza ilustra um fenômeno demográfico e social crescente no Brasil: o envelhecimento ativo pautado na autonomia. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo IBGE, revelam que quase um em cada cinco domicílios brasileiros possui apenas um morador e, entre as mulheres que vivem sozinhas, mais da metade tem 60 anos ou mais.

Solidão versus Independência na Terceira Idade
Para os especialistas, há uma linha tênue, mas crucial, entre a escolha de morar sozinho por independência e o isolamento compulsório.
- Autonomia com Suporte: De acordo com a médica geriatra Thays Kelly, morar sozinha é um indicador de envelhecimento bem-sucedido quando a idosa preserva sua capacidade de escolha e segurança.
- Os Riscos do Isolamento: O cenário torna-se preocupante quando a ausência de pessoas evolui para a solidão. “A solidão pode ser tão prejudicial quanto os fatores de risco tradicionais para as idades mais avançadas”, alerta a médica. O isolamento severo atua como gatilho para o sedentarismo, piora da alimentação, depressão, distúrbios do sono e declínio cognitivo.
- O Paradoxo do Cuidado: A transição para o lugar de quem precisa de assistência pode ser difícil para mulheres que passaram a vida cuidando dos outros. Muitas resistem a pedir ajuda por medo de perder a liberdade ou de serem infantilizadas.
A Preservação do Desejo: A jornalista Camila Appel, autora do livro “Enquanto Você Está Aqui”, defende que envelhecer bem está atrelado à liberdade de continuar fazendo escolhas. “Desejar, para mim, é estar viva. E eu gostaria de envelhecer sem dor, porque a dor se impõe a tudo”, avalia. A autora acrescenta, a partir de entrevistas com médicos paliativistas, que um dos grandes arrependimentos de pacientes no fim da vida é justamente a falta de construção ou manutenção de vínculos significativos ao longo dos anos.
O Fenômeno da Sobrevida Feminina
O Censo Demográfico do IBGE aponta que o Brasil abriga mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, com expressiva maioria feminina. A maior longevidade das mulheres em relação aos homens é explicada por propensões genéticas e hormonais, mas sobretudo por comportamento: estatisticamente, as mulheres buscam mais consultas médicas preventivas e se expõem menos a condutas de risco, como o tabagismo e a violência.
No entanto, viver mais não se traduz automaticamente em viver melhor. O grande desafio da medicina diagnóstica e preventiva atual é garantir que essa sobrevida seja acompanhada de saúde física, cognitiva e social, combatendo as dores crônicas e o abandono.
Onde buscar redes de apoio e convivência no Brasil:
Para idosos que buscam combater o isolamento, o país oferece redes de acolhimento gratuitas ou subsidiadas:
- CRAS: Os Centros de Referência da Assistência Social oferecem oficinas e serviços de fortalecimento de vínculos em quase todos os municípios.
- Centros de Convivência da Pessoa Idosa: Espaços municipais e estaduais com foco em atividades físicas e culturais.
- SESC: Instituição privada que atua nacionalmente com projetos voltados ao envelhecimento ativo e turismo social.
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