Setembro Verde: número de doações cresce, mas recusa familiar ainda é gargalo no processo

Nefrologista ressalta importância de debater sobre doação de órgãos em situações anteriores a de perda, e comenta sobre transplante de rim ser o mais requisitado

Por Redação — Publicado em 15/09/2026 às 09:26

O Brasil celebra este ano uma grande conquista quando falamos da fila de espera para doações de órgãos. Segundo relatório do Registro Brasileiro de Transplantes, em 2025 4.335 pessoas transplantaram pelo menos um órgão, o que equivale a 20,3 por milhão de população (pmp). O número representa aumento e ressalta a importância em falar sobre se tornar doador muito antes do momento de doença e falecimento.  

Entre os órgãos, o rim segue sendo o mais transplantado, com 6.697 cirurgias e crescimento de 5,9% em relação a 2024. Na sequência, o fígado também apresentou crescimento, com 2.573 procedimentos e crescimento de 4,8%. No entanto, para órgãos torácicos (coração e pulmão), houve redução. 

Segundo o nefrologista do Grupo São Lucas, Dr. Filipe Miranda Bernardes (CRM: 202097 | RQE: 112141), o transplante renal pode representar muito mais do que deixar a diálise, e sim recuperar autonomia, melhorar a qualidade de vida e ter a possibilidade de viver por muitos anos com maior liberdade. Porém, existe uma diferença muito grande entre o número de pessoas que precisam de um rim e o número de órgãos disponíveis. Ao final de 2025, quase 39 mil pessoas estavam na lista de espera no Brasil. 

Ele ressalta que o país tem um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo, mas ainda apresenta diferenças importantes entre as regiões. Há locais com grande atividade transplantadora e outros onde o acesso é muito menor. O próprio consenso da Sociedade Brasileira de Nefrologia chama atenção para esse problema e estima que o número de transplantes realizados ainda esteja bastante abaixo da necessidade existente. 

“Reduzir a fila depende de aumentar a doação, mas também de melhorar toda essa jornada desde o diagnóstico até o encaminhamento, avaliação, estrutura dos centros transplantadores e logística. Quando uma dessas etapas falha, podemos perder tempo e, em algumas situações, até uma oportunidade de transplante”, explica o especialista.  

Recentemente, houve uma mudança neste consenso para a importância de encaminhar os pacientes com doença renal crônica para avaliação de transplante no momento adequado. Agora, recomenda-se encaminhar potenciais candidatos quando a taxa de filtração estiver abaixo de 20 mL/min/1,73 m² e, quando possível, iniciar esse processo cerca de seis a doze meses antes da previsão de necessidade de diálise. 

“Isso faz diferença porque a avaliação para transplante não acontece de um dia para o outro. Existem exames, avaliações cardiológicas, investigação de infecções, atualização de vacinas e, em alguns casos, a possibilidade de avaliar um doador vivo. Quando o paciente chega cedo, nós ganhamos algo extremamente valioso na medicina, tempo para planejar. Em alguns casos, é possível até realizar o transplante antes de o paciente precisar iniciar diálise, o chamado transplante preemptivo. Além dos benefícios clínicos, isso muda completamente a experiência do paciente, porque ele deixa de conhecer suas opções apenas quando a doença já chegou a uma fase muito avançada”, complementa.  

Morte encefálica e recusa familiar 

Ainda segundo o relatório, a principal origem dos órgãos doados é de doadores falecidos. Na grande maioria dos casos, a morte encefálica é o principal caminho deste processo. O termo usado vem para explicar que houve uma perda completa e irreversível das funções do cérebro. Diferente do coma, no qual ainda existe atividade cerebral e pode haver possibilidade de recuperação dependendo da causa.  

No Brasil, o diagnóstico segue um protocolo médico rigoroso. É necessário que exista uma causa conhecida capaz de explicar aquela lesão cerebral e que sejam afastadas situações que poderiam confundir a avaliação, como determinados medicamentos, alterações importantes da temperatura corporal ou outros distúrbios que possam interferir no funcionamento do cérebro.  

Em seguida, são realizadas avaliações clínicas por médicos capacitados, em momentos distintos, procurando sinais que demonstrem a ausência das funções cerebrais. Também é realizado o teste de apneia, que avalia se existe capacidade de respirar espontaneamente. Além disso, o protocolo brasileiro prevê a realização de exame complementar que demonstre ausência de atividade ou de circulação sanguínea cerebral, conforme os critérios estabelecidos. Somente depois de todas essas etapas é possível declarar a morte encefálica. 

A recusa familiar ainda segue sendo uma grande dificuldade no processo de doação, principalmente por dúvidas com relação ao diagnóstico entre outras crenças e mitos conservados pela sociedade.  

“Algumas pessoas veem o coração batendo com auxílio de aparelhos e têm dificuldade para compreender que aquela pessoa já faleceu. Também existem receios de que a retirada dos órgãos desfigure o corpo, de que a família tenha custos ou até de que a equipe médica possa reduzir os esforços para salvar a vida de alguém que seja doador. Esses receios não correspondem ao funcionamento do sistema. A retirada é realizada cirurgicamente por equipes autorizadas, o corpo é reconstituído e o diagnóstico de morte encefálica é independente da decisão sobre doação. Existe ainda uma informação fundamental de que no Brasil, quem autoriza a doação após a morte é a família. Por isso, mais importante do que simplesmente dizer que é doador, é conversar em casa e deixar essa vontade clara”, indica.  

Em 2025 foi estabelecida uma nova Política Nacional de Doação e Transplantes. Entre os pontos importantes estão o fortalecimento da organização nacional das listas, uma maior integração entre as centrais estaduais e a Central Nacional de Transplantes e uma atenção maior à logística de distribuição e transporte dos órgãos.  

Também foram criados mecanismos para incentivar a qualidade dos serviços de doação e transplante, e em 2026 o Ministério da Saúde publicou orientações específicas para melhorar etapas como retirada, preservação, acondicionamento e transporte dos órgãos.  

É importante que se esclareça que não existe uma fila baseada em ordem de chegada. Em uma situação de doença renal crônica por exemplo, são realizados exames de sangue, avaliação cardiovascular, investigação de infecções, atualização de vacinas entre outros de acordo com a idade e o histórico de cada pessoa.  

Depois que a avaliação é concluída e não existem impedimentos para o transplante, o paciente pode ser inscrito no Sistema Nacional de Transplantes. A seleção de quem receberá determinado rim considera critérios como compatibilidade sanguínea e imunológica, tempo de espera e outras situações previstas pelo sistema. Portanto, quando surge um órgão, o sistema identifica entre os pacientes inscritos aqueles que apresentam as melhores condições de compatibilidade para aquele doador. 

“Temos um sistema de transplantes muito relevante e profissionais extremamente qualificados no Brasil. O desafio dos próximos anos é fazer com que toda essa estrutura funcione cada vez mais como uma rede integrada, identificando melhor os doadores, aproveitando mais órgãos, transportando-os com rapidez e fazendo o paciente chegar ao transplante na hora certa”, conclui o médico.  

Dr. Filipe Miranda Bernardes nefrologista 684x1024
Nefrologista explica como novo processo pode melhorar as doações de órgãos e explica da importância da conscientização familiar para se tornar doador – Foto: Divulgação

Sobre o Grupo São Lucas – O Grupo São Lucas de Ribeirão Preto (SP) é uma marca de tradição, qualidade e confiança em medicina de excelência há mais de 50 anos, com médicos especialistas, atendimento humanizado e estrutura própria com alta tecnologia. É composto pelo Hospital São Lucas, Hospital São Lucas Ribeirania e São Lucas Medicina Diagnóstica. O Grupo, localizado em Ribeirão Preto (SP) é administrado pela Hospital Care, uma holding de serviços de saúde formada por mais de 30 unidades entre hospitais e clínicas, em 7 cidades do país.                    

Atendimento à imprensa                           

Outras Palavras Comunicação – www.outras.com.br                          

Bruna Martinelli – (16) 98865-1664 – e-mail: bruna@outras.com.br                          

Ana Cândida Tofeti – (16) 99128-9419 – e-mail: anacandida@outras.com.br

Saiba mais 📲https://revistasaudeemforma.com.br/

Sair da versão mobile