Procrastinação do sono: Por que jovens estão sacrificando o descanso pelo lazer na madrugada

Fenômeno impulsionado por exaustivas jornadas de trabalho e estudo faz jovens procrastinarem o descanso na madrugada; médicos alertam para riscos de ansiedade e depressão.

Por Raquel Pereira – Publicado em 13/07/2026 10:50 Foto: IA

Ir para a cama tarde da noite, mesmo sabendo que o despertador tocará cedo na manhã seguinte, tornou-se uma rotina comum para milhares de jovens adultos. O comportamento, longe de ser uma insônia biológica tradicional, é um fenômeno social crescente descrito por especialistas como “vingança na hora de dormir” (revenge bedtime procrastination). A prática consiste em adiar o momento do repouso para encaixar atividades prazerosas e de lazer que não couberam ao longo de um dia dominado por obrigações profissionais ou acadêmicas.

O termo ganhou projeção global após viralizar nas redes sociais a partir de um relato da jornalista chinesa Daphne K. Lee, que descrevia a rotina de trabalhadores exaustos enfrentando expedientes de até 12 horas diárias na Ásia. No Brasil, o hábito se espalha rapidamente entre a população na faixa dos 20 a 30 anos, afetando diretamente pessoas com rotinas de dupla jornada, como a professora Nicóli Tombini, de 21 anos, que concilia três cursos de graduação e dois empregos. “Fica difícil conciliar tudo. O sono acaba esperando”, relata a jovem, que já enfrenta crises de ansiedade causadas pela privação do descanso.

A busca impulsiva por autonomia e controle do tempo

De acordo com a pneumologista Erika Treptow, pesquisadora do Instituto do Sono, a dinâmica desse comportamento difere da procrastinação convencional, na qual o indivíduo adia uma tarefa desagradável. No caso do sono, a escolha é consciente e busca uma compensação emocional imediata. “Quem adia o sono sabe que dormir é bom e saudável, mas quer se dar aquele tempo de lazer. A noite acaba se tornando o único momento em que a pessoa sente que é dona do próprio tempo e de suas vontades”, explica a médica.

Essa “recompensa” se traduz em estender a leitura de um livro, maratonar séries em serviços de streaming ou passar horas navegando de forma despretensiosa em dispositivos eletrônicos já deitado na cama. O comportamento tende a ser uma decisão impulsiva e não planejada, engatada logo após dias consecutivos de esgotamento. O administrador Augusto Fugulim, de 26 anos, percebe o hábito após encarar expedientes de 10 horas de trabalho: “Acontece naturalmente. Quando noto que estou me vingando, não me permito parar e ir dormir”.

Custos para a saúde mental e estabilidade metabólica

A compensação noturna, no entanto, cobra um preço alto da saúde integral. Um estudo recente publicado pela Sociedade de Pesquisa do Sono de Oxford associou diretamente os altos níveis de procrastinação do sono ao agravamento de quadros de depressão, distúrbios severos de insônia crônica e ansiedade generalizada.

Doutora Erika Treptow ressalta que, além do ritmo acelerado do mercado de trabalho moderno — que frequentemente exige conectividade fora do expediente —, há fatores biológicos e de desenvolvimento que vulnerabilizam os jovens. “O córtex pré-frontal, área responsável pelo autocontrole, pode estar em fase final de maturação. Fisiologicamente, o jovem já possui uma tendência natural a dormir e acordar mais tarde, o que potencializa o engajamento nessas noitadas de lazer”, conclui.

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