Levantamento inédito apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia revela que a taxa de prevalência passou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025; projeções indicam nova alta de 67% na próxima década.
Por Talyta Vespa, g1— Publicado em 26/09/2026 – 09:20 – Foto: Adobestock
A prevalência de Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) no Brasil registrou um crescimento superior a cinco vezes em um intervalo de pouco mais de uma década. Em 2012, a taxa estimada era de 30 pacientes para cada 100 mil habitantes no país. Em 2025, o indicador alcançou a marca de 158 casos por 100 mil habitantes.
Os dados fazem parte de um amplo levantamento epidemiológico que analisou os registros de 337.539 pacientes atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2012 e 2025. O trabalho foi apresentado nesta sexta-feira (25 de setembro de 2026) durante o 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC), e é considerado um dos retratos mais detalhados sobre o tema já produzidos em países em desenvolvimento.
Aceleração nos Diagnósticos e Projeções para 2035
Além da prevalência acumulada, a incidência de novos casos anuais registrou alta significativa, subindo de 9,35 para 12,34 novos casos por 100 mil habitantes. Os dados mostram uma curva de aceleração mais acentuada a partir do ano de 2018.
Segundo os pesquisadores, essa inflexão decorre de uma soma de fatores, incluindo o envelhecimento populacional, maior conscientização médica e ampliação do acesso a exames, além do impacto de mudanças ambientais e alimentares.
Modelos estatísticos aplicados na pesquisa estimam que, caso o ritmo atual se mantenha, a taxa de prevalência alcançará 264 casos por 100 mil habitantes até 2035 — uma expansão projetada de 67% em relação a 2025. A taxa de novos diagnósticos anuais pode chegar a 22,7 por 100 mil habitantes, patamar semelhante ao observado em países europeus.
“Estamos deixando de tratar de uma doença relativamente rara para lidar com uma condição crônica de peso crescente sobre o sistema de saúde. Muitos pacientes são diagnosticados ainda jovens e vão precisar de acompanhamento por décadas, o que muda a dimensão do problema”, ressalta o coloproctologista Abel Quaresma, professor da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) e um dos coordenadores da pesquisa.
Disparidades Regionais e Predomínio da Retocolite
O levantamento apontou que o aumento dos casos ocorre de maneira heterogênea pelo território nacional. O estado de São Paulo lidera o índice, registrando 278 casos por 100 mil habitantes, seguido por Paraná (251) e Santa Catarina (204). As regiões Norte e Nordeste apresentam taxas menores, cenário atribuído em parte à subnotificação e às dificuldades de acesso a exames especializados, como a colonoscopia.
O estudo também identificou alterações no perfil clínico das DII no país:
- Retocolite Ulcerativa vs. Doença de Crohn: A proporção de casos de retocolite ulcerativa cresceu em ritmo superior ao da doença de Crohn. A relação passou de 1,5 caso de retocolite para cada caso de Crohn em 2012 para a proporção de 2,1 para 1 em 2025, aproximando o Brasil do padrão observado na América Latina.
- Fatores Ambientais e Dieta: Embora alterações genéticas estejam presentes em cerca de 30% dos pacientes, o ambiente exerce papel relevante. O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em aditivos e conservantes que alteram a diversidade da microbiota intestinal, é uma das principais hipóteses investigadas.

Gargalos no Diagnóstico e Desafios para o SUS
Atualmente, o tempo médio entre o aparecimento dos primeiros sintomas (como diarreia persistente, sangue nas fezes e dor abdominal) e a confirmação do diagnóstico varia de três a quatro anos no Brasil.
O atraso no diagnóstico e início do tratamento favorece o aparecimento de fibroses e estreitamento das alças intestinais, quadros que não respondem aos medicamentos e frequentemente exigem intervenção cirúrgica. Estima-se que até metade dos pacientes com doença de Crohn necessite de cirurgia ao longo da vida.
Os autores ressaltam que o avanço das DII representará um desafio econômico expressivo para a saúde pública e suplementar, devido à necessidade de acompanhamento multidisciplinar, colonoscopias periódicas e ao custo elevado de medicamentos biológicos, que podem atingir até R$ 500 mil ao ano por paciente nos casos mais graves.
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