Por que ainda falhamos em tratar a depressão? Um dos maiores especialistas do mundo explica

Quatro em cada dez pacientes com depressão não respondem aos tratamentos atuais de forma eficaz. O renomado psiquiatra dinamarquês Gregers Wegener discute os motivos por trás desse cenário alarmante, apontando que o foco exclusivo na serotonina, a ausência de biomarcadores e o modelo rígido de diagnóstico mascaram a complexidade de uma doença multifatorial.

Por Por Larissa Beani – Publicado em 06 de junho de 2026 às 10:32

A depressão continua sendo um dos maiores desafios da medicina moderna, e os dados revelam uma realidade preocupante: cerca de 40% dos pacientes não encontram alívio com as terapias e medicamentos convencionais. Para compreender essa estagnação, o psiquiatra dinamarquês Gregers Wegener propõe uma revisão profunda na forma como a psiquiatria enxerga o transtorno. Segundo ele, as lacunas na pesquisa clínica e as falhas nos métodos de diagnóstico atuais impedem a evolução de abordagens verdadeiramente eficazes.

Um dos principais equívocos apontados pelo especialista é o foco excessivo e quase exclusivo na regulação da serotonina. Embora os neurotransmissores desempenhem um papel relevante, a depressão é uma condição altamente multifatorial que envolve aspectos biológicos, genéticos e psicossociais. O tratamento puramente medicamentoso falha ao ignorar a necessidade de suporte psicoterapêutico contínuo e a complexidade do ambiente em que o indivíduo está inserido. A depressão não se resume a um desequilíbrio químico isolado.

Outro obstáculo crítico reside no sistema de diagnóstico padronizado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Wegener argumenta que os critérios atuais são eficientes para categorizar sintomas e facilitar a comunicação médica, mas falham em traduzir a biologia individual de cada paciente. Pessoas com perfis biológicos e necessidades completamente distintas acabam recebendo o mesmo diagnóstico genérico. A falta de biomarcadores específicos impede que a ciência diferencie as diversas variações da doença, inviabilizando um tratamento personalizado.

Adicionalmente, os ensaios clínicos tradicionais costumam desconsiderar a prevalência de comorbidades. Na prática médica real, quase todos os pacientes apresentam condições de saúde associadas, sejam físicas ou mentais, o que altera drasticamente a resposta aos antidepressivos. Os modelos de testes laboratoriais também mostram limitações severas ao tentar replicar a complexidade do sofrimento humano. Para o especialista, reverter o índice de falha terapêutica exige que a ciência médica encare a depressão como uma patologia integrada, unindo inovação biológica ao cuidado humanizado.

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