Por Diogo Sponchiato – Publicado em 19/10/2026 – 10:39 – Foto: Cedida pela Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto
Eles viraram o símbolo de uma era. Mirando duas das principais doenças crônicas da atualidade — a obesidade e o diabetes —, tornaram-se a classe de medicamentos mais lucrativa da indústria farmacêutica e mobilizaram uma revolução médica, comportamental e econômica sem precedentes.
Falamos, claro, dos análogos de GLP-1, classe que ficou popularizada pelo apelido de “canetas emagrecedoras” e, com a queda da patente de uma de suas principais expoentes (a semaglutida), aquece o mercado e as farmácias no país.
Mas essa história toda começa, na verdade, há mais de 40 anos. E um personagem central nela foi o médico canadense Daniel Drucker, da Universidade de Toronto.
Suas pesquisas foram decisivas para entender a atuação do GLP-1, esse peptídeo que ajuda a controlar o peso e a glicemia, e pavimentar a criação de remédios com esse princípio.
Candidato inclusive a um Prêmio Nobel, o cientista falou com VEJA SAÚDE sobre como tudo começou e o que ainda espera ver nesse capítulo fascinante da medicina.
VEJA SAÚDE: Sabemos que alguns cientistas desempenharam um papel crucial nas descobertas relacionadas ao GLP-1 e na transformação dessas descobertas em medicamentos. Qual foi a sua participação nessa história?
Daniel Drucker: Tive a sorte de chegar a Boston, nos EUA, em 1984, e fui designado para um projeto que buscava entender se uma molécula chamada pró-glucagon [precursora do hormônio glucagon, produzido pelo pâncreas quando falta glicose na circulação] poderia dar origem a alguns peptídeos previstos de acordo com trabalhos de sequenciamento genético.
Meus estudos demonstraram, por meio de técnicas de biologia molecular, que múltiplas formas de GLP-1 podiam ser liberadas nas células nas quais introduzíamos determinado gene.
Em seguida, procurei entender qual era a função desses peptídeos. Não observei uma atividade significativa ao estudá-los, por exemplo, nas células da hipófise [glândula no cérebro], mas, ao fazer isso com as ilhotas pancreáticas [onde se produz a insulina], consegui mostrar que uma forma de GLP-1 era capaz de estimular a secreção de insulina, um efeito que dependia da concentração elevada de glicose.
Essas foram as primeiras demonstrações da bioatividade e do potencial do GLP-1, que serviram de base para pedidos de patente depositados pelo meu orientador, o professor Joel Habener, tendo em vista o tratamento do diabetes tipo 2.
Foi assim que perceberam que poderiam desenvolver uma nova classe de medicamentos?
Bem, quando demonstramos pela primeira vez, na década de 1980, que o GLP-1 estimulava a secreção de insulina, ficou claro que esse poderia ser um efeito útil para ajudar pessoas com diabetes tipo 2.
No entanto, já existiam no mercado medicamentos baratos — comprimidos como as sulfonilureias e as glinidas — que estimulavam a secreção de insulina de forma robusta. Por isso, havia um ceticismo considerável entre os colegas da comunidade científica.
Eles questionavam: “Por que injetar um fármaco duas vezes ao dia para tratar o diabetes, quando temos muitos pacientes que podem simplesmente tomar um ou dois comprimidos de baixo custo para obter o mesmo efeito?”
A observação de que o GLP-1 só estimulava a secreção de insulina quando os níveis de glicose estavam elevados era, naturalmente, uma vantagem, pois o risco de hipoglicemia seria baixo. Contudo, levou bastante tempo para convencer os colegas de que essas propriedades poderiam ser vantajosas.
Houve algum momento decisivo em que notaram que o GLP-1 poderia ajudar na perda de peso?
O aspecto mais empolgante surgiu em 1996, quando três laboratórios — incluindo o de Steve Bloom, em Londres, e o nosso, alguns meses depois — demonstraram que o GLP-1 inibia a ingestão de alimentos em camundongos ou ratos.
Mas cabe lembrar que centenas de possíveis drogas reduzem a ingestão de alimentos em pequenos animais, e a grande maioria deles não consegue produzir o mesmo efeito com segurança em humanos. Assim, tínhamos uma batalha árdua pela frente, só que, à medida que os medicamentos à base de GLP-1 foram introduzidos na prática clínica para o diabetes, começou-se a observar certo grau de perda de peso nos pacientes.
Alguns anos depois, a Novo Nordisk decidiu testar doses mais elevadas de liraglutida para avaliar o grau de perda de peso que poderia ser alcançado. A observação de que doses mais elevadas de GLP-1 poderiam ser utilizadas com segurança para aumentar a magnitude da perda de peso serviu de base para os estudos que embasaram a primeira aprovação de um medicamento da classe — a liraglutida, em 2014 — para o tratamento do excesso de peso.
Então veja: transcorreram 18 anos desde a observação inicial em pequenos animais até a primeira aprovação para essa indicação em humanos.
O GLP-1 produzido pelo corpo tem uma meia-vida curtíssima. Que obstáculos tiveram de ser transpostos para chegar a uma classe farmacológica eficiente?
A rápida degradação do GLP-1 na circulação, bem como sua eliminação pelos rins, representava uma barreira para o desenvolvimento de medicamentos à base de GLP-1.
O primeiro grande avanço surgiu com o isolamento de uma proteína semelhante ao GLP-1, encontrada em um lagarto e denominada exendina-4. Essa proteína foi descoberta pelo doutor John Eng, que trabalhava em Nova York. Ele estava convicto de que aquele peptídeo poderia ser útil no tratamento do diabetes tipo 2 e registrou patentes para proteger sua descoberta.
No entanto, muitas empresas farmacêuticas também trabalhavam em versões do GLP-1 humano mais estáveis e resistentes à degradação, demonstrando pouco interesse em colaborar com a criação de uma molécula derivada do lagarto.
Felizmente, uma pequena empresa americana topou e, em uma série de estudos, demonstrou que injeções de exendina-4, administradas duas vezes ao dia, poderiam ser utilizadas de forma segura e eficaz para reduzir a glicemia e controlar o peso corporal em pacientes com diabetes tipo 2.
Esse programa de desenvolvimento clínico resultou na primeira aprovação de um medicamento da classe dos GLP-1, a exenatida, em 2005. Posteriormente, é claro, testemunhamos o sucesso da indústria farmacêutica com o desenvolvimento da liraglutida, da dulaglutida e, mais recentemente, da semaglutida e da tirzepatida — medicamentos semanais muito mais potentes e altamente eficazes.
O senhor esperava que esses remédios tivessem tamanho sucesso médico e comercial?
Quando trabalhava como pesquisador em 1984, meu objetivo principal era aprender biologia molecular e, quem sabe, obter sucesso com publicações — sucesso esse que, eu esperava, me permitiria concorrer a um cargo acadêmico.
Conciliar a vida pessoal e profissional foi um grande desafio, e eu não imaginava, na época, que o trabalho que eu desenvolvia levaria um dia a um sucesso extraordinário — tanto em termos de novas terapias quanto na mudança da percepção social sobre a obesidade, passando a reconhecê-la como uma doença passível de tratamento.
Tive a sorte de estar no lugar certo e na hora certa. Em meados dos anos 1980, ninguém que trabalhava com o GLP-1 previa o enorme sucesso que se concretizaria décadas mais tarde.
O que as canetas para tratar diabetes e obesidade nos ensinam sobre a ciência básica?
Acredito que elas são um excelente exemplo de como a ciência básica pode gerar dividendos inesperados e valiosos a longo prazo, ilustrando a importância de financiar pesquisas voltadas a descobertas científicas.
Décadas depois, continuamos fascinados pelos efeitos dos medicamentos à base de GLP-1, que vão além do simples controle da glicemia ou do peso corporal.
Existem muitos receptores de GLP-1 em tecidos importantes — como coração, vasos sanguíneos, cérebro, rins e fígado — e a ativação desses receptores locais certamente contribui para alguns dos benefícios observados na prática clínica.
Os medicamentos à base de GLP-1 também promovem toda uma comunicação dentro do organismo, instruindo o sistema nervoso a modificar a função e a saúde de diferentes órgãos.
O senhor também conduziu estudos que mostraram a ação anti-inflamatória desses remédios. Por que isso é tão relevante?
Nós e outros pesquisadores demonstramos que esses medicamentos são importantes reguladores da inflamação.
E sabe-se hoje que a inflamação está associada ao desenvolvimento do diabetes e de complicações relacionadas à obesidade, além de impulsioná-los.
Portanto, para além dos benefícios decorrentes do controle glicêmico e da perda de peso, é provável que as múltiplas ações dos medicamentos à base de GLP-1 contribuam para os resultados que observamos atualmente.
Contudo, cada condição é diferente, e a contribuição relativa desses efeitos varia conforme o problema em questão.
A propósito, hoje as canetas são testadas — e, em alguns casos, até aprovadas — para outras indicações, do fígado ao cérebro. O que mais o empolga nesse sentido?
Há muitas áreas promissoras nas quais os medicamentos à base de GLP-1 estão sendo estudados. Observamos benefícios na redução de doenças cardiovasculares, hepáticas e renais, além de haver uma enorme quantidade de pesquisas animadoras em andamento.
Será que esses remédios seriam úteis para alguns tipos de transtornos alimentares? Poderíamos, quem sabe, utilizá-los na prevenção ou no tratamento de doenças neurodegenerativas? Eles seriam eficazes para transtornos por uso de substâncias em indivíduos propensos a problemas com álcool, cigarro e outras drogas? Poderíamos recorrer a eles para pacientes com transtornos psiquiátricos, incluindo depressão e ansiedade?
Também há grande interesse em investigar se a associação desses medicamentos às terapias convencionais pode ser eficaz diante de doenças de base inflamatória. Já vimos resultados positivos em pacientes com osteoartrite e com psoríase, e há trabalhos em andamento visando doenças pulmonares e intestinais.
Acredito que veremos avanços extraordinários na próxima década em uma ampla gama de condições que pouco se assemelham ao ponto de partida — ou seja, o tratamento do diabetes tipo 2 e o controle do apetite.
Sua carreira ficou marcada pelo GLP-1, mas pouca gente sabe que o senhor ajudou a descobrir o GLP-2, propiciando o desenvolvimento de um tratamento para pessoas com síndrome do intestino curto, uma solução que pode livrar esses pacientes de uma vida ligada a sondas alimentares. Pode contar os bastidores dessa história?
Ficamos muito entusiasmados ao descobrir as primeiras ações do GLP-2 no início da década de 1990, especificamente sua atividade como fator de crescimento intestinal que também potencializava a absorção de nutrientes.
Testamos mais de 100 versões diferentes de moléculas de GLP-2 e, por fim, selecionamos um candidato — hoje conhecido como teduglutida — para o desenvolvimento de uma medicação. Esse processo foi tocado inicialmente por uma empresa local de Toronto, sendo posteriormente assumido por uma farmacêutica americana. Após algumas parcerias, a teduglutida acabou sob responsabilidade da Takeda, que a comercializa mundialmente.
Esse medicamento foi avaliado em dois estudos controlados e resultou numa redução significativa da necessidade de nutrição intravenosa entre crianças e adultos com síndrome do intestino curto. É o tratamento mais eficaz de que dispomos até o momento para a insuficiência intestinal — permite que 15 a 20% dos pacientes consigam interromper a nutrição intravenosa.
No entanto, e felizmente, essa síndrome é uma condição mais rara, então é compreensível que, embora os gastroenterologistas estejam familiarizados com a teduglutida e o GLP-2, o tema seja menos conhecido pela maioria da comunidade médica e da população.
Curiosamente, começamos a observar avanços promissores na combinação do GLP-2 e do GLP-1, que renderam novos análogos em desenvolvimento. É difícil realizar estudos clínicos com GLP-2, uma vez que a teduglutida tem custo elevado.
Contudo, à medida que surgem medicamentos genéricos e novos análogos de GLP-2, acredito que veremos, gradualmente, um ressurgimento e uma ampliação do interesse por essa molécula.
O senhor atua na mesma universidade que, há mais de 100 anos, descobriu a insulina, o que mudou o tratamento do diabetes. Qual o valor desse ambiente de pesquisa e ensino para a inovação médica?
Trabalhar na Universidade de Toronto, em seus hospitais afiliados e no Lunenfeld-Tanenbaum Research Institute (LTRI) sempre foi um privilégio para mim, dado o legado da descoberta da insulina há mais de 100 anos.
Esse ambiente científico tem sido particularmente valioso, pois colaboramos em diversas áreas da ciência biomédica e tive a sorte de encontrar especialistas de muitos campos diferentes, tanto no instituto de pesquisa e no meu hospital de atuação, o Monte Sinai, quanto nos departamentos da faculdade de medicina.
A universidade apoia fortemente o impacto comercial das pesquisas. É claro que precisamos de diretrizes para garantir a proteção dos interesses dos pacientes, ao mesmo tempo que promovemos a translação de nossas descobertas em medicamentos por meio de parcerias com a indústria farmacêutica.
De modo geral, esse ambiente tem sido extremamente propício ao meu trabalho e explica, em parte, por que nunca deixei a Universidade de Toronto ao longo dos últimos 40 anos.
Ainda há muito a desvendar sobre o GLP-1? A que linha de pesquisa tem se dedicado no momento?
Continuamos a estudar o funcionamento do GLP-1. Embora venhamos investigando esse peptídeo e medicamentos baseados nele há mais de 40 anos, ainda existem muitos mistérios, e buscamos compreender como o GLP-1 exerce suas ações tão interessantes no organismo.
Observamos em nossa sociedade o fenômeno da “microdosagem”, no qual muitos pacientes relatam benefícios substanciais ao utilizar esses medicamentos em doses muito inferiores às recomendadas para diabetes tipo 2 e obesidade.
Portanto, acredito que ainda há muito trabalho a ser feito para desvendar as funções do GLP-1, o que representa uma excelente oportunidade para os jovens que estão ingressando nas ciências biomédicas.
O senhor já recebeu diversas láureas, entre elas o prêmio Princesa das Astúrias de investigação científica. Está preparado para o Nobel?
Existem centenas de cientistas brilhantes e descobertas extraordinárias que merecem reconhecimento. A ciência relacionada ao GLP-1 tem recebido uma atenção considerável, algo pelo qual sou imensamente grato.
No entanto, o GLP-1 é apenas uma entre dezenas de descobertas e trajetórias científicas fascinantes que trouxeram benefícios à saúde humana. A maior recompensa da minha carreira tem sido — e continua sendo — ouvir relatos e testemunhar as melhorias na saúde de quem vem utilizando medicamentos como as canetas de GLP-1.
Fazer uma pequena diferença positiva na vida de pessoas em todo o mundo é a maior recompensa com a qual um médico e cientista poderia sonhar.
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