Desenvolvido com o auxílio de bioinformática da USP, o atlas UPVAtlas catalogou cerca de 55 mil vírus de RNA em 31 países; 77% das espécies eram completamente desconhecidas pela ciência.
Por Thabata Oliveira (Agência FAPESP) — Publicado em 11/09/2026 às 16:46 – Foto: Sergei Starostin/Pexels
Um amplo estudo internacional publicado na revista científica Nature Communications catalogou a existência de 54.945 espécies de vírus de RNA que circulam em ambientes urbanos e periurbanos de 102 cidades em 31 países — incluindo São Paulo. Cerca de 77% desse total (mais de 42 mil vírus) nunca haviam sido descritos pela ciência, revelando uma diversidade biológica invisível e inexplorada em locais de grande fluxo diário, como estações de metrô, hospitais, agências bancárias e redes de esgoto.
Denominado UPVAtlas (Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos), o levantamento analisou 2.922 amostras e contou com importante participação brasileira. A triagem das sequências genéticas foi realizada com o geNomad, uma ferramenta de bioinformática desenvolvida por Antônio Pedro Camargo, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP) e integrante do CEPID B3, apoiado pela FAPESP.
Metodologia e Descobertas Taxonômicas
A maior parte dos materiais de ambiente urbano foi coletada pelo consórcio MetaSUB em superfícies de contato frequente (como corrimãos, bancos e catracas) durante a pandemia de COVID-19. O estudo utilizou a metatranscriptômica — técnica que sequencia todo o RNA presente nas amostras:
- Novos Agrupamentos Virais: Ao comparar a enzima de replicação RdRP, os pesquisadores propuseram a criação preliminar de dois novos filos e uma nova classe de vírus de RNA.
- Diversidade Incompletada: As curvas de acúmulo genético não estabilizaram, indicando que os 55 mil vírus catalogados são apenas uma fração da real diversidade microbiana existente nas cidades.
Hospedeiros e Aplicações Clínicas
Embora o volume de vírus seja expressivo, os pesquisadores enfatizam que a descoberta não representa uma ameaça iminente de novas pandemias, uma vez que a maioria infecta bactérias ou outros microrganismos:
- Risco a Vertebrados: Apenas 60 vírus identificados apresentam alta probabilidade de infectar humanos, sendo 19 deles encontrados em amostras de superfícies urbanas.
- Potencial Terapêutico (Fagoterapia): O levantamento identificou 166 bacteriófagos capazes de atacar bactérias do grupo ESKAPE (como a Staphylococcus aureus), abrindo caminhos para o desenvolvimento de tratamentos contra superbactérias resistentes a antibióticos.
O atlas servirá como ponto de partida para a vigilância epidemiológica global, permitindo monitorar como as comunidades de vírus evoluem com o passar dos anos e com o avanço da urbanização.
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