Medicamento reduz lesões neuronais e preserva a capacidade de andar em 81% dos pacientes; acordo de transferência tecnológica envolve a farmacêutica Merck e a Nortec Química
Tâmara Freire – Repórter da Agência Brasil – Publicado em 21/05/2026 – 16:16
Foto – Marcello Casal Jr
O Ministério da Saúde deu um passo estratégico para reduzir a dependência externa do país na aquisição de terapias de alta complexidade. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) anunciou um acordo de cooperação técnica para passar a produzir em território nacional o medicamento de alto custo cladribina oral. A medida visa comprimir os custos de importação e logística arcados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), expandindo a capacidade de atendimento e distribuição da terapia para pacientes diagnosticados com esclerose múltipla.
Distribuído na rede pública sob o nome comercial Mavenclad desde que foi incorporado ao catálogo do SUS em 2023, o fármaco é indicado especificamente para indivíduos com Esclerose Múltipla Remitente-Recorrente (EMRR) altamente ativa. Esse grupo engloba pacientes que registram surtos frequentes de perda neurológica ou apresentam uma evolução rápida e agressiva da patologia, mesmo já estando sob tratamento com as terapias de base tradicionais. Atualmente, o custo médio do tratamento para cada paciente alcança a cifra de quase R$ 140 mil ao longo de um ciclo de cinco anos, gerando uma alta pressão orçamentária sobre a saúde pública.
Perfil da Doença e os Resultados Clínicos do Fármaco
A esclerose múltipla é classificada como uma patologia crônica, inflamatória e degenerativa que ataca de forma progressiva o sistema nervoso central, comprometendo o cérebro e a medula espinhal. O tipo remitente-recorrente é a manifestação mais prevalente da doença, afetando mais de 30 mil brasileiros. O quadro clínico é caracterizado por episódios agudos de surtos (sintomas neurológicos súbitos) intercalados por períodos de remissão parcial ou total. A velocidade de evolução varia de forma individual, mas em casos severos e sem a intervenção adequada, a doença pode culminar em sequelas irreversíveis, como a perda total da visão, paralisia de membros e degeneração das funções cognitivas.
A estimativa das autoridades de saúde indica que, dentro do universo de pacientes, cerca de 3,2 mil pessoas sofram com a variante de alta atividade no país, sendo o público-alvo prioritário da medicação. A cladribina oral destaca-se por ser o primeiro tratamento de curta duração e com efeito prolongado capaz de controlar a progressão da EMRR, o que chancelou sua inclusão na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Dados clínicos de última geração compilados durante o 39º Congresso do Comitê Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla (ECTRIMS) apontam que os usuários do remédio registraram uma redução expressiva no ritmo de formação de lesões neuronais em um intervalo de dois anos. Outros estudos complementares demonstraram que 81% das pessoas tratadas conseguiram preservar a capacidade de caminhar sem o auxílio de qualquer tipo de apoio físico (como bengalas ou andadores), e mais da metade dos voluntários não necessitou de terapias adicionais para conter a doença.
Aliança Industrial e Fortalecimento do Complexo da Saúde
A viabilização da manufatura em solo brasileiro ocorrerá por meio de uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP). A aliança tripartite conecta o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), unidade da Fiocruz responsável pela produção de medicamentos, a multinacional alemã Merck (detentora da patente do Mavenclad) e a indústria química-farmacêutica nacional Nortec Química, que atuará na síntese do insumo farmacêutico ativo.
Este projeto representa o primeiro medicamento oficial de Farmanguinhos direcionado especificamente para o tratamento da esclerose múltipla. De acordo com a diretora da unidade fabril, Silvia Santos, o laboratório público direciona seu parque tecnológico para suprir demandas de alto valor agregado e combater também as chamadas doenças negligenciadas.
“A iniciativa consolida a missão institucional de robustecer o SUS e democratizar o acesso a terapias biotecnológicas disruptivas feitas no Brasil. Trata-se de um vetor indispensável para converter diretrizes de saúde pública em assistência médica real para as fatias mais vulneráveis da população”, afirma Silvia.
O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, destaca que a cooperação expande as fronteiras de absorção científica do país e consolida as bases do Complexo Econômico e Industrial da Saúde. O objetivo central é assegurar a sustentabilidade orçamentária dos programas federais do SUS no longo prazo, gerando postos de trabalho especializados de engenharia e química no país, reduzindo o preço final das compras governamentais e blindando a qualidade técnica do produto.
A fundação já possui outros dois acordos tecnológicos em andamento com a Merck: o primeiro focado no desenvolvimento nacional da betainterferona 1a (outra terapia de linha para esclerose) e o segundo voltado para a fabricação de um medicamento específico para o tratamento da esquistossomose em populações infantis.
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