Cenários noturnos assustadores alteram a percepção do repouso, comprometem a regulação emocional e servem como indicativo biológico de que a saúde mental ou neurológica precisa de atenção.
Por Sol Valls, Em La Nacion Publicado em 05/06/2026 – 14:54 – Foto: Freepik
Você corre, mas as pernas não avançam. Há alguém ou alguma coisa atrás. Tenta gritar, mas a voz não sai da garganta. O medo não é abstrato: é físico e incapacitante. Depois vem o despertar abrupto e a respiração ofegante em um quarto escuro que leva um tempo para voltar a parecer familiar. Há noites em que se acorda com o coração acelerado e com a sensação de não ter descansado nada, embora se tenha dormido as recomendadas oito horas. Isso levanta a questão: descansamos de verdade quando temos pesadelos? A ciência diz que não.
O que Acontece no Cérebro Durante um Pesadelo?
Os pesadelos são sonhos vívidos, emocionalmente intensos e de conteúdo negativo — envolvendo ameaças à sobrevivência, à integridade física ou à autoestima — que despertam quem os vivencia. Eles ocorrem predominantemente durante a fase REM (Rapid Eye Movement), etapa caracterizada pelo movimento rápido dos olhos e pela atividade cerebral mais intensa de todo o ciclo noturno. É nesse momento que o cérebro processa emoções e consolida memórias.
É fundamental que a medicina e os pacientes saibam distinguir os pesadelos dos chamados terrores noturnos, pois tratam-se de fenômenos biológicos completamente diferentes.
Diferenças Entre Pesadelos e Terrores Noturnos
- Fase do Sono: Enquanto os pesadelos acontecem no sono REM, os terrores noturnos são parassonias que ocorrem nas fases profundas do sono não REM.
- Nível de Consciência: Nos pesadelos, a pessoa desperta completamente e recupera a consciência do ambiente. Nos terrores, o indivíduo pode gritar e se agitar, mas permanece dormindo.
- Lembrança do Evento: Quem tem um pesadelo consegue se lembrar de detalhes das cenas ao acordar. Já nos terrores noturnos, raramente há qualquer recordação do episódio no dia seguinte.
O Sensores Técnicos Versus a Percepção do Corpo
Uma das questões que intrigam os pesquisadores é se os pesadelos alteram objetivamente a arquitetura física do sono ou se o impacto se limita à percepção subjetiva de quem os experimenta. Um estudo publicado na revista científica Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation monitorou, por meio de polissonografia domiciliar, o sono de voluntários com pesadelos frequentes e de um grupo de controle.
Os resultados revelaram que as pessoas com pesadelos relataram pior qualidade de descanso, dificuldades ao despertar e sintomas de insônia. No entanto, os exames gráficos não mostraram diferenças significativas na duração global dos ciclos REM nem na densidade dos movimentos oculares.
Tecnicamente, o cérebro estava cumprindo as etapas do sono, mas o indivíduo não registrava o descanso de forma restauradora. Os pesadelos provocam um comprometimento clínico significativo que exige atenção especializada, independentemente de o exame de polissonografia apontar uma estrutura normal.
Por outro lado, linhas de pesquisa complementares sugerem que, em casos crônicos, há sim uma perda de eficiência do sono, com redução da fase de ondas lentas — que é a etapa mais restauradora para o corpo — e um aumento de microdespertares ao longo da madrugada.
O Sono REM Como Laboratório Emocional Cortical
Para entender por que dormir não é o mesmo que descansar, é preciso compreender que o sono cumpre uma função que vai além do relaxamento muscular. O sono REM funciona como um “laboratório emocional”. Quando passamos por eventos estressantes acordados, é durante o sono REM que o cérebro descarrega a carga dramática dessas memórias, permitindo que elas sejam armazenadas sem o sofrimento inicial.
Quando um pesadelo interrompe esse ciclo de forma abrupta, fazendo a pessoa acordar assustada, esse processo de cura térmica e psicológica fica inacabado. A fragmentação constante do sono REM prejudica a capacidade do indivíduo de regular suas próprias emoções durante o dia. De acordo com Michael Schredl, pesquisador do Instituto Central de Saúde Mental da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, a frequência dessas manifestações está diretamente ligada ao nível de estresse e à forma como o cérebro lida com a ansiedade em vigília.
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