Covid matou três vezes mais do que o registrado oficialmente entre 2020 e 2023, revela relatório da OMS

Documento aponta 22,1 milhões de mortes globais em decorrência da pandemia. Agência destaca que “desinfodemia” e negacionismo estatal agravaram cenário e inflaram óbitos no Brasil.

Por The Conversation Brasil — Publicado em 09/06/2026 às 14:33 – Foto: Adobe Stock

O impacto real da pandemia de Covid-19 no planeta foi severamente subestimado pelos balanços epidemiológicos tradicionais. De acordo com o relatório “Estatísticas Mundiais de Saúde”, apresentado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o vírus causou a morte de 22,1 milhões de pessoas globalmente entre os anos de 2020 e 2023. O indicador é três vezes maior do que as 7 milhões de vítimas que haviam sido reportadas e notificadas formalmente pelos governos dos países até então.

A explosão estatística detalhada pela agência internacional baseia-se em dois fatores centrais de saúde coletiva: a subnotificação crônica de diagnósticos e o volume de mortes indiretas. Este segundo grupo abrange os pacientes portadores de outras patologias graves que perderam a vida devido ao colapso generalizado das redes hospitalares e à consequente barreira de acesso aos tratamentos de urgência.

AEngrenagem da “Desinfodemia”

Paralelamente à crise sanitária, a OMS e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontam que o mundo enfrentou uma “desinfodemia”. O termo conceitua a proliferação em massa de notícias falsas e fraudes informacionais estruturadas que contaminaram a percepção pública sobre a gravidade do vírus, estimulando cidadãos a ignorarem preceitos científicos consolidados, como o distanciamento social e o uso de máscaras.

Uma pesquisa matriz publicada pela Unesco identificou as nove principais vertentes temáticas que sustentaram essa rede de desinformação global, dinâmicas que se manifestaram de forma aguda no território brasileiro:

  1. Origem e dinâmica de disseminação do novo coronavírus;
  2. Divulgação de dados estatísticos falsos ou distorcidos;
  3. Maximização de impactos econômicos para gerar pânico;
  4. Desacreditação sistemática de jornalistas e da imprensa profissional;
  5. Receituários falsos de sintomas, diagnósticos e tratamentos;
  6. Distorções sobre os impactos do vírus na sociedade e no meio ambiente;
  7. Politização ideológica da crise de saúde;
  8. Criação de conteúdo enganoso voltado ao lucro financeiro e estelionato;
  9. Uso de imagem de celebridades para validar teorias infundadas.

O Ecossistema de Desinformação no Brasil

O relatório e análises acadêmicas destacam que a desinfodemia encontrou um ambiente propício no Brasil devido ao respaldo institucional partindo do governo federal. Sob a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, a estrutura pública de comunicação operou de forma ostensiva contra as diretrizes técnicas de enfrentamento à doença preconizadas pela OMS.

O falseamento do conhecimento científico e o incentivo ao uso de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a Covid-19 moldaram o comportamento social, resultando em mais de 700 mil mortes oficiais no país — patamar que os novos critérios da OMS indicam ser ainda maior.

Especialistas em comunicação pública apontam que o chamado “percurso desinformativo” se consolidou como uma engrenagem profissionalizada e financiada. A disseminação ocorria por múltiplos canais — incluindo propaganda oficial do governo, declarações à imprensa no “cercadinho” do Palácio da Alvorada e, fundamentalmente, por meio das transmissões ao vivo de Bolsonaro nas redes sociais.

Ao minimizar a gravidade da infecção ao tratá-la publicamente como uma “gripezinha” e promover remédios sem eficácia, as manifestações do Executivo interferiram diretamente na confiança da população nas autoridades de saúde. O saldo desse ecossistema foi o tensionamento da democracia, o estresse social coletivo e a consolidação do Brasil como o segundo país com o maior número de mortes registradas por Covid-19 no planeta.

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