Apesar de ter atingido a marca histórica de 17,7 mil cirurgias no ano anterior, o sistema nacional enfrenta um avanço acelerado de novas indicações médicas; tempo médio de espera já supera um ano.
Por Paula Laboissière – Publicado em 09/09/2026 às 14:45 – Foto: Divulgação/HFB
O número de pacientes que aguardam por um transplante de córnea no Brasil registrou um aumento de 15% nos primeiros seis meses de 2026, saltando de 32.639 em dezembro do ano passado para 37.719 pessoas ativas na fila, segundo dados divulgados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).
A alta expressiva expõe um paradoxo no sistema de saúde nacional: embora o país tenha alcançado em 2025 o número recorde de 17.790 cirurgias de córnea, a velocidade de novas indicações médicas supera a capacidade de atendimento. Como consequência do passivo acumulado, o tempo médio de espera por uma intervenção saltou para 370 dias — mais do que o dobro registrado há uma década (174 dias).
Fatores de Pressionamento e Disparidades Regionais
De acordo com o CBO, o cenário decorre do represamento de cirurgias eletivas durante a pandemia de covid-19, associado a desafios financeiros e operacionais enfrentados pelos bancos de olhos:
- Custos e Legislação: A falta de reajuste nas tabelas do sistema somou-se ao aumento nos custos de insumos cotados em dólar e a novas exigências sanitárias de gestão de qualidade.
- Desigualdade nos Estados: O Ceará destaca-se como referência nacional em agilidade, fechando o ano com apenas 93 pacientes na lista ativa após realizar 1.371 procedimentos. Em contrapartida, o Rio de Janeiro acumulou 4.760 pessoas na fila após realizar apenas 653 cirurgias em 2025. São Paulo (7.505) e Minas Gerais (4.532) registram as maiores listas absolutas.
- Perfil do Paciente: As mulheres representam 56% dos candidatos na fila, enquanto idosos com 65 anos ou mais somam 47% do total. Além disso, o país acumula 753 crianças e adolescentes aguardando pela cirurgia.
Apesar dos gargalos estruturais, o CBO ressalta que o modelo brasileiro mantém avaliação internacional positiva, com desempenho comparável ao do Canadá, Austrália e nações europeias, posicionando-se como líder absoluto em volume e estrutura na América Latina. O panorama é o tema central das discussões do 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, realizado nesta semana em Salvador.
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