Levantamento realizado pela Fiocruz e UFBA revela impacto severo das temperaturas extremas na saúde pública, elevando internações por problemas renais, respiratórios e desidratação infantil.
Por Rafael Cardoso — Agência Brasil — Publicado em 18/06/2026 08:36 – Foto: Paulo Pinto
Um estudo epidemiológico de grande escala lançado nesta quarta-feira (17) revelou uma estatística alarmante sobre o impacto das mudanças climáticas no país: aproximadamente 120 mil mortes registradas no Brasil entre os anos de 2000 e 2019 estiveram diretamente associadas às ondas de calor extremo. O montante equivale a 0,6% da mortalidade total do período, desconsiderando óbitos provocados por causas externas, como acidentes e episódios de violência.
Intitulado “Saúde e ondas de calor no Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS”, o relatório foi desenvolvido em conjunto por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A coordenação técnica do projeto é fruto de cooperações internacionais e governamentais, envolvendo o Ciência&Clima — parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) — e o ProAdapta, firmado entre o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o governo da Alemanha.
Radiografia do Impacto: Doenças e Grupos de Risco
O levantamento cruzou dados meteorológicos e hospitalares de 5.566 municípios brasileiros (quase a totalidade do território nacional). As análises consolidaram uma relação direta entre o calor extremo e o agravamento de quadros clínicos, com impactos específicos variando de acordo com a faixa etária e a condição socioeconômica:
- Crianças (Menores de 10 anos): A principal causa de internação durante as ondas de calor são as gastroenterites. A alta temperatura acelera a deterioração de alimentos, altera a qualidade da água e aumenta drasticamente o risco de desidratação grave nos pequenos.
- Idosos (Maiores de 60 anos): Apresentam altíssima sensibilidade para o desenvolvimento de insuficiência renal aguda, diabetes descompensada e problemas respiratórios, como pneumonia. O estudo aponta ainda que crises cardiovasculares (infartos e AVCs) disparadas pelo calor tendem a evoluir tão rápido nessa faixa etária que muitas vítimas falecem antes mesmo de conseguir hospitalização.
- Gradiente Social: O risco de morte se mostrou substancialmente maior entre mulheres e indivíduos de menor escolaridade, evidenciando que a falta de infraestrutura habitacional adequada e a vulnerabilidade social potenciam os efeitos letais do clima.
“A inovação está em integrar, em escala nacional, a frequência, intensidade e duração das ondas de calor com os dados do SUS. Os efeitos são observados em todo o território, o que nos permite orientar políticas públicas de contingência mais eficazes”, explica Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz.
Comportamento do Calor e Adaptação Urbana
Os dados históricos revelam que a maior parte das cidades brasileiras enfrentou uma escalada na frequência e na força das massas de ar quente. Curiosamente, a dinâmica climática se manifestou de formas distintas pelas regiões do país:
| Padrão Geográfico do Calor | Regiões Brasileiras Afetadas |
| Maior Frequência e Duração | Eventos mais longos e constantes no Norte e Centro-Oeste. |
| Maior Intensidade | Picos de temperatura mais distantes das médias históricas no Sul e Sudeste. |
Diante do diagnóstico, os autores do estudo defendem a urgência da implementação de sistemas de alerta antecipado integrados à vigilância epidemiológica do SUS.
Para Maurício Guerra, diretor de Meio Ambiente Urbano do MMA, a pesquisa deixa uma mensagem inequívoca de que a adaptação climática urbana — com a criação de cidades verdes, arborizadas e resilientes — não é mais uma pauta para o futuro, mas uma necessidade urgente para salvar vidas no presente.
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