Homem de 63 anos diz ter ficado cego após usar Ozempic e processa fabricante nos EUA
Americano perdeu a visão dos dois olhos após desenvolver uma doença rara no nervo óptico; farmacêutica contesta relação direta com o medicamento. Por Larissa Rodrigues – Publicado em 17/10/2026 11:37
Americano perdeu a visão dos dois olhos após desenvolver uma doença rara no nervo óptico; farmacêutica contesta relação direta com o medicamento.
Por Larissa Rodrigues – Publicado em 17/10/2026 11:37 – Foto: Divulgação
Um homem de 63 anos afirma ter perdido a visão dos dois olhos após utilizar Ozempic, medicamento indicado para o tratamento do diabetes tipo 2. Todd Engel, morador de Maryland, nos Estados Unidos, entrou com uma ação judicial contra a farmacêutica Novo Nordisk, fabricante do remédio, alegando que não recebeu informações suficientes sobre os possíveis riscos de complicações oculares.
O americano começou a utilizar o medicamento em 2023 para controlar o diabetes. Segundo seu relato, cerca de quatro meses depois do início do tratamento, apresentou os primeiros problemas de visão. Ele foi diagnosticado com neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noiana), uma doença rara que compromete a circulação sanguínea no nervo óptico e pode provocar cegueira permanente.
Engel contou que percebeu a perda da visão do olho direito na véspera do Ano-Novo de 2024, enquanto se preparava para trabalhar. Aproximadamente dez meses depois, sofreu um episódio semelhante no olho esquerdo. Atualmente, é considerado legalmente cego. Apesar da sequência dos acontecimentos, ainda não foi comprovado que o Ozempic tenha causado a doença.
Anvisa investiga 13 notificações de perda de visão associadas a canetas emagrecedoras
Perda da visão mudou completamente a vida do americano
Antes de desenvolver a doença, Todd Engel trabalhava como operador de máquinas pesadas e motorista de caminhão. Ele havia dedicado aproximadamente 40 anos à profissão, que precisou abandonar depois de perder a visão.
A condição também comprometeu sua independência. Atividades cotidianas que antes realizava sozinho passaram a exigir a ajuda de familiares. Para se locomover fora de casa, o americano passou a utilizar uma bengala branca.
Em entrevista à Fox News, Engel relatou o impacto emocional e profissional da perda da visão. Segundo ele, a situação interrompeu uma carreira construída ao longo de décadas e mudou os planos que tinha para a aposentadoria.
O homem afirma que médicos não identificaram uma alternativa capaz de recuperar sua visão. Após o segundo episódio, ele interrompeu o uso do Ozempic.
O que é a doença que provocou a cegueira?
A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica é uma condição que ocorre quando há redução do fluxo sanguíneo para uma parte do nervo óptico, responsável por transmitir as informações visuais dos olhos ao cérebro.
A falta de irrigação adequada pode provocar danos às fibras nervosas, causando perda súbita da visão, geralmente em um dos olhos. Em determinadas situações, o comprometimento pode ser permanente.
Entre os fatores associados ao desenvolvimento da doença estão diabetes, hipertensão arterial e outras condições vasculares. Por isso, estabelecer a causa de um episódio exige avaliação médica e análise do histórico clínico do paciente.
Pesquisas científicas vêm investigando uma possível associação entre medicamentos à base de semaglutida, princípio ativo do Ozempic, e o desenvolvimento da Noiana. Entretanto, a identificação de uma associação estatística não significa, por si só, que o medicamento tenha provocado a doença em determinado paciente.
Fabricante do Ozempic contesta acusações
A Novo Nordisk nega que exista comprovação definitiva de uma relação de causa e efeito entre o uso da semaglutida e a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica.
A farmacêutica afirma que análises de ensaios clínicos controlados não identificaram aumento da incidência da condição entre pacientes tratados com semaglutida. A empresa também sustenta que continua acompanhando os dados de segurança de seus medicamentos.
A ação apresentada por Engel faz parte de um conjunto de processos movidos nos Estados Unidos por pacientes que relatam problemas graves de visão após utilizar medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1.
Os autores das ações alegam que os fabricantes não forneceram alertas adequados sobre possíveis riscos. As empresas contestam as acusações, e a responsabilidade pelos episódios ainda depende de avaliação judicial e científica.
Brasil também investiga relatos de perda de visão
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também acompanha notificações de problemas oculares envolvendo medicamentos utilizados no tratamento do diabetes e da obesidade.
Em setembro de 2026, a agência investigava 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica associadas a canetas e medicamentos como Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro.
Desse total, cinco notificações envolviam Ozempic. Outros registros estavam relacionados a diferentes apresentações de medicamentos utilizados para controle glicêmico e tratamento da obesidade.
O sistema de farmacovigilância também reunia 74 notificações de outras complicações visuais, incluindo visão turva, redução da acuidade visual e alterações no campo de visão.
A Anvisa ressalta que uma notificação de evento adverso não comprova automaticamente que o medicamento tenha provocado o problema. Os registros precisam ser investigados para identificar possíveis relações e descartar outras causas.
O que os pacientes devem fazer?
Pessoas que utilizam Ozempic ou outros medicamentos da mesma classe devem manter o acompanhamento médico e comunicar qualquer alteração visual percebida durante o tratamento.
Sintomas como perda repentina da visão, surgimento de áreas escuras no campo visual ou redução súbita da capacidade de enxergar exigem atendimento oftalmológico imediato.
A suspeita de um efeito adverso não significa que todos os pacientes desenvolverão a complicação. Também não é recomendado interromper o tratamento por conta própria, sem orientação profissional, exceto quando houver indicação médica específica.
Próximos passos
O processo movido por Todd Engel deverá discutir se a fabricante forneceu informações suficientes sobre os possíveis riscos associados ao medicamento e se existe fundamento científico para atribuir a perda da visão ao tratamento.
Enquanto isso, autoridades sanitárias e pesquisadores continuam acompanhando relatos de complicações oculares em pacientes que utilizam medicamentos à base de semaglutida.
O caso reforça a importância da vigilância sobre possíveis efeitos adversos e do acompanhamento médico durante o uso desses tratamentos, especialmente entre pessoas com fatores de risco para doenças vasculares e oculares.
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