Febre da proteína: especialistas alertam para riscos de excesso e o mito dos ultraprocessados “saudáveis”
O avanço do mercado de produtos proteicos tem gerado alertas de especialistas sobre o consumo excessivo de proteínas e o risco da "snackficação" da dieta por meio de ultraprocessados. O
Com mercado de suplementos e snacks proteicos em expansão, levantamentos mostram que apelo nutricional pode confundir consumidor; veja quanta proteína o corpo realmente precisa.
Por Leonardo Ávila – Publicado em 14/07/2026 16:45 – Foto: Getty Images
A busca pela ingestão ideal de proteínas se consolidou como uma verdadeira obsessão de consumo. O macronutriente, essencial para a construção muscular e regeneração de tecidos, virou o protagonista de um mercado em expansão que promete transformar até lanches comuns de supermercado em opções fitness. No entanto, nutrólogos e órgãos de defesa do consumidor alertam que o apelo saudável em torno de barras, bebidas e alimentos enriquecidos esconde armadilhas nutricionais e pode induzir ao consumo excessivo e desnecessário.
Um levantamento realizado pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) avaliou 52 produtos proteicos e identificou que 11 deles apresentavam informações confusas ou divergentes nas embalagens sobre a real quantidade de proteína por porção. Além disso, a adição de proteína isolada a alimentos tradicionalmente simples, como paçoca, tapioca e macarrão, frequentemente transforma itens minimamente processados em produtos ultraprocessados, ricos em corantes, conservantes e aditivos químicos associados ao aumento de doenças crônicas como diabetes e hipertensão.
O perigo da “snackficação” e o apelo de saudabilidade
O Idec classifica o fenômeno como “snackficação” da alimentação saudável — a tendência de substituir refeições completas e naturais por lanches industrializados sob a justificativa de que são ricos em nutrientes específicos. “As alegações de proteína em ultraprocessados podem comprometer a escolha consciente da pessoa consumidora, reforçando um apelo de saudabilidade nem sempre real”, aponta o relatório do órgão de defesa.
Na contramão do marketing agressivo da indústria de suplementos, as diretrizes de saúde pública têm se tornado mais conservadoras em relação à quantidade diária recomendada. A própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reduziu o valor diário de referência de proteína de 75g (em 2003) para 50g (em 2020), ajustando as diretrizes de rotulagem nutricional no país.
Quanta proteína você realmente precisa consumir?
De acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), um adulto saudável e com vida ativa necessita de 50 a 75 gramas de proteína por dia (com base em uma dieta padrão de 2.000 calorias diárias). Especialistas apontam que essa cota é facilmente atingida por meio de uma alimentação balanceada, sem qualquer necessidade de suplementação industrializada para a maioria da população.
“Essa quantidade é suficiente para manter as funções vitais e preservar a massa muscular em adultos saudáveis”, explica Maria Laura da Costa Louzada, professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP e vice-coordenadora do Nupens/USP.
Nutricionistas reforçam que a busca pelo ganho de massa magra não justifica o consumo desmedido de shakes e barras proteicas. “Mais nem sempre significa melhor; o corpo precisa de equilíbrio entre proteína, carboidratos e gorduras saudáveis”, conclui a nutróloga Camila Ribeiro, destacando a importância de priorizar alimentos frescos e comida de verdade na rotina alimentar.
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